o rosto

cobriu os olhos com uma pasta branca
depois fez luzir o nariz e a face
apagou os poucos cabelos negros
deixara na outra caixa o rosto usado –
o leve ricto no lábio inferior
as rugas e o seu aspecto severo
a fragilidade do maxilar saliente
e humano

vestiu o rosto compreensivo –
as pessoas gostam de pessoas
desde que sejam compreensivas
e assim avançou pelas ruas
com seus olhos de prata
e assim frequentou assembleias
com sua boca de prata
e encantou gente nos bares
nas filas das festas ferozes
nas classes de dança de salão
devolvendo prata resplandecente
a todos aqueles que o amaram 
colmados pelo estúpido afeto 
que sabiam apenas dedicar
ao maior de seus ídolos


abril

azul tecido sobre a tarde limpa
abril é um tom de branco em porto alegre
espalhado nas paredes de prédios arruinados
inesperada forma de beleza
tua mão mais branca entre meus dedos
alguma coisa de irrepetível acontece
é o amor que ao fim descalça as luvas
contendo a nova estação em verdes folhas
nada perderemos nada perderemos nada
e teus dedos apertam ligeiros
a plena extensão de minha palma
como um pé infantil que se estende
para ter certeza de onde está o fundo


lutas

o tempo de homens que fingiam lutar
quebrando cadeiras uns nos outros

a voar de um dos cantos do ringue
para depois aplicar chaves e o golpe do pilão

nossa alegria reprisada nas tardes de sábado
hulk hogan e o índio apache e andré o gigante


nossos golpes também ensaiados
as almofadas espalhadas no chão da sala

salvávamos nossos personagens preferidos
invencíveis naquele arte de contar até três

o meu era o russo moscovita balacacheta
o do meu irmão o pérfido manteiga mole

em mais de um ano de brincadeiras
os dois nunca se enfrentaram

a cada perspectiva de confronto surgia 
um adiamento tacitamente acordado

talvez soubéssemos que no dia dessa luta
sobreviriam apenas os golpes de verdade


às quatro horas da tarde

às quatro horas da tarde 
minhas unhas precisam de corte
minhas pobres unhas inúteis
pouco afiadas para ferir
ainda curtas para dedilhar
um tanto maiores do que deveriam
seus arcos brancos e irregulares
do que vocês querem me lembrar
minhas tímidas cegas unhas
às quatro horas da tarde


publico poemas

publico poemas
para vencer a política
de uns tipos cujos pescoços grossos
rompem qualquer colarinho
enquanto a decência sobrevive
em uns poucos cães abandonados

publico poemas
para não comparecer 
a congressos de letras
que terminam por descobrir (e publicar)
que os congressos de letras
produzem fantásticos conhecimentos 
sobre os congressos de letras

publico poemas
porque a beleza morreu em 1930
mas não sei o que pôr no lugar
nunca saio bem nas fotos
e as mensagens positivas
os cartões com suas cores berrantes
têm a ardência seca da fuligem 
em um mundo feito um corredor de ônibus


americano

se eu fosse americano
passaria os dias de olho
nas líderes de torcida

todos deviam ter direito
a esta forma estúpida
de felicidade


manhãs de quarta-feira

o despertador
ela resmunga
olhos de menina
inchados de sono
ela se revolta de bruços
esmurra o travesseiro
é o pequeno quadro
das manhãs de quarta-feira

logo ela se levanta
bate a porta do banheiro
faz ressoar a tábua
depois o fluxo
agudo e contínuo
e um bocejo irado
e a seguir a porta escancarada
e o halo dourado da juba
e o salto súbito
e o jogo das molas
ela puxa os lençóis
onde está meu café
ela pergunta
com uma surpresa exigente
que parece sempre inédita
como todas as coisas
capazes de redenção