Análise de Michael de Souza Cruz para o meu poema Juncos

“Penso que a poesia deve ser redentora dos objetos do mundo”. É dessa maneira que o poeta Pedro Gonzaga sintetizou sua visão acerca do que deve ser a poesia, em mais uma de suas conversas sobre arte com este que escreve, geralmente ambientada na Palavraria Livraria Café, no bairro Bom Fim. Pressionado a esclarecer sobre tal “papel redentor”, Pedro afirmou que “a poesia (ao menos boa parte da “poesia moderna”) é um certo ordenamento da matéria(…) A matéria é sempre o ambiente, o poeta dá a ela um sentido, uma atenção ao que é singular. O objeto na sua singularidade”.
Como que instigado pela pergunta–cuja resposta não tinha ainda nenhum comentário de minha parte–, Pedro Gonzaga se pôs a escrever um poema. Levado por sua própria definição, a idéia–cadenciada por mente e mãos do poeta–se fez arte. Seu resultado foi Juncos, o poema abaixo.

por entre sombras azuis
a matéria inegável do corpo
é forma sensível do tempo
bendita a manhã que passa
ao peso constante de tua bacia
no modo como certa maciez
concentra os efeitos da chuva
e o calor escaldante da areia

depois as duas fontes que ofertas
enxutas ocorrências da sede
pedras sucessivas em meus lábios
enquanto se enredam as ramas
ao som alado dos juncos
que o vento extrai da persiana

Analisemos o poema em quatro partes, duas partes por estrofe. Aos quatro primeiros versos:

por entre sombras azuis
a matéria inegável do corpo
é forma sensível do tempo
bendita a manhã que passa

O primeiro verso já traz consigo a aclimatação da temática poética: as sombras azuis são objetos cujas condições de percepção são–e devem ser–estranhas ao leitor. Sombras nos remetem à escuridão, em geral associada ao preto, não ao azul. Ou seja, não há condições ideais de percepção, a matéria é opaca aos olhos. No entanto, diante das incertezas, estamos passivos ao objeto da presente poesia: o corpo. Sua presença não pode ser negada, impõe-se. E, então, um primeiro entendimento é estabelecido: o corpo é a condição humana da experiência. Ao identificá-lo, estamos no mundo. Ao senti-lo, há então a vida: a nossa (a do leitor) e a do outro (a do próprio corpo). E, com isso, a satisfação existencial, a partir do cenário, o ambiente identificado: a manhã que passa. Tensão e resolução em quatro versos.
Esse reconhecimento simultâneo de si e da alteridade não são conquistados pela visão, antes obliterada pela sombra opaca, mas por outro sentido, o tato. É o que fica claro pelos versos que seguem o poema:

ao peso constante de tua bacia
no modo como certa maciez
concentra os efeitos da chuva
e o calor escaldante da areia

Esses quatro versos nos revelam, neste verdadeiro movimento progressivo de compreensão, a identidade do corpo: uma mulher. É o corpo feminino a fonte de experiência e entendimento. O todo visto por meio da parte, a parte mais íntima da mulher. Ela é o conteúdo inegável, seu peso explicita a passividade e a rendição do eu-lírico.
A matéria, agora, está aclimatada a uma ordenação, a um cenário. As metáforas trazidas à baila são entre si opostas sob o olhar do leitor atento, chuva e areia, água e terra. Não obstante, essa aproximação se firma não pelo que são em si, mas pelos seus efeitos: a umidade e o calor da parte mais íntima do corpo feminino. Eis o mistério do corpo, objeto de entendimento, de experiência e do mais puro desejo. O desejo do corpo do outro como condição da sua própria experiência.
A segunda estrofe, em seus três primeiros versos, marca a temporalidade da experiência e a abertura da vontade em direção a outras regiões do corpo então reconhecido. Sua sentido é o norte:

depois as duas fontes que ofertas
enxutas ocorrências da sede
pedras sucessivas em meus lábios

A marcação de tempo é notável, o desejo se apresenta em instantes, a experiência está no tempo. Sua direção, agora, são os seios da mulher. Seu busto, nuamente apresentado, se coloca como oferenda àquele que o contempla. Sua qualificação flutua entre o profano, o incestuoso e o primitivo. Sede do leito materno, fonte de vida? Ou simples fonte da sede dos desejos? A ambigüidade é necessária. Desejo e possibilidade da experiência se confundem e colapsam, nada pode ser olvidado. Mentes freudianas teriam aqui seu tributo pago em dia, sem esquivos.
Encerrada tal querela, uma quebra: a atenção aos sentidos, origem da experiência, ganham importância novamente. Confirma-se a primazia do tato, possibilidade da vontade e da compreensão, em detrimento da visão, instância de opacidade. E a metáfora novamente ganha contornos de determinismo, de inevitabilidade e de dose de brutalidade: pedras jogadas aos lábios. Sensação pura e imediata, como é o próprio querer. A marcação de sucessão–novamente o temporalidade que está em jogo–emitem o êxtase desenfreado, fruição inebriada.
Maciez e calor genitais, dureza e força dos seios: jovialidade em estado de graça. O tempo é a experiência do eu lírico, não o da mulher, objeto de desejo. Este se apresenta incorruptível ao tempo, auge de beleza e sensualidade. O desejo do corpo é o desejo desse instante apoteótico, sensação de permanência–eternidade. Nesse instante, é o corpo do eu-lírico que clama e suga a beleza do corpo da mulher– beleza eventualmente materializada, mas que dela escapa– no que há nela de única, imortal e sublime, na fugaz tentativa de negar o inevitável: a finitude do ser desejante.
O movimento do poema segue seu ritmo de modo a fornecer um maior esclarecimento do cenário onde tudo se passa, título do poema:

enquanto se enredam as ramas
ao som alado dos juncos
que o vento extrai da persiana

Novamente fica evidente a marcação temporal. Não podemos perder isso de vista. A experiência está no tempo, ela tem duração, medida, fim. Tudo se passa em um ambiente estranho e alheio à experiência. Dessa vez, a exposição do natural no que ele tem de mais enigmático: sua indiferença e seu móbile próprios, indecifráveis, ao lado da sua ordenação pela pelo gesto poético, da vida que sente, se conhece e deseja.
A audição é então evocada. Não como faculdade do ente que deseja, ou do objeto desejado, mas como o segredo que se conta ao leitor, que vai concebendo o cenário de dentro para fora, da confusão do que se vê, o entendimento do que se toca e a audição da membrana envolvente à experiência. Tudo, então, se torna claro: a vida está entre as paredes frias e os movimentos indiferentes das ramas de junco. O tema não são os juncos (designação dada a plantas herbáceas delgadas e flexíveis que habitam lugares úmidos–mais uma evidente sugestão erótica), porém a matéria em forma de corpo humano que, ordenada e viva, supera a frieza e inapelável indiferença que lhe são intrínsecas. Estamos, com efeito, diante de um poema dedicado à defesa da vida humana, caro leitor. Da vida no que ela tem de substancial: racionalidade e vontade; entendimento e querer; contemplação e ação. Mas não é somente isso o que podemos ver aqui. Juncos é uma justa instanciação da tese poética de Pedro Gonzaga.

Novamente perguntado por mim sobre por que sua poesia não poderia ser qualificada de concreta, o poeta foi enfático: “Não se trata de uma exaltação da matéria ou do corpo por si, mas do que ela provoca e a ela subjaz… Um sentido”. O sentido do corpo é a vida que nele está contida–autoentendimento e vontade. A arte poética–o gesto artístico, portanto–é sempre criadora, petrarquista, idealista e emana telos à matéria–corpo–fria, limitada e finita. A poesia, em uma formulação que corre aqui o risco de ser lugar-comum, clama pela vida, provoca, chama à frente o que é vivo e humano.
Daí a sedução sempre contida que uma poesia “metafísica” e “cerebral” dignas de um T.S. Eliot ou Wallace Stevens exercem sobre o gosto do poeta. Não se trata de contemplar o real e o existente. Isso é metade do caminho, metade da poesia, metade do homem. O homem é também um ser desejante–este aliás, traço crucial de sua temporalidade, fonte das experiências que o constituem–, e essa condição resoluta do que é humano não pode ser silenciada na grande arte.
Por isso, a poesia de Pedro Gonzaga, além de oferecer ao leitor a compreensão do mundo e de si mesmo a partir de sua lente idealista e de seu gesto criativo, chama o homem à ação. Ler um poema seu não é somente ter uma experiência estética, mas também uma experiência existencial, que implica o exame dos seus próprios atos. Nas palavras do poeta: “pôr em risco a própria pele”. Se o leitor não quer tantas exigências sobre si mesmo ao ler um poema, talvez o melhor seja de fato não ler a poesia de Pedro Gonzaga. Seguindo de forma incontornável o ensinamento do inigualável Drummond–uma de suas maiores referências– , “que tristes são as coisas consideradas sem ênfase”.
A exemplo do que um grande filósofo certa feita já alertara–“ver um leão é já temê-lo”–a poesia de Pedro Gonzaga supõe a unidade do movimento perceptivo e volitivo, intelectual e passional. Não há recuo contemplativo, a despeito da beleza do poema. Quem o encara, está intimado a refletir sobre si, sobre suas paixões, a examinar sua condição. Não há espaço para o sossego indiferente da contemplação do exterior mediante idéias. O que há é a existência humana posta em xeque pelo convite do olhar do artista tal como ele vê.
A Poesia de Pedro Gonzaga acaba, com efeito, fazendo as pazes com a Filosofia–a boa Filosofia, isto é, aquela que, a despeito de toda técnica e rigor conceituais que eventualmente possui, tem coração. Não, isso tampouco é uma das menores preocupações desse poeta petrarquista, refratário a análises e lógicas e desvelamentos fenomenológicos de toda sorte. Mas o que importa aqui não é exatamente o que intencionalmente quer o poeta com a sua poesia, embora as considerações que aqui se encontram partam de um relato real seu, mas sim o que ele de fato faz com a sua poesia.
E o que a poesia de Pedro Gonzaga faz é oferecer àquele que se sente desafiado em a ler a lente pela qual o artista concebe o mundo, a imagem que ele oferece à matéria espontânea que ganha uma vida mediante o sentido atribuído pela arte da sua poesia. Algo a partir do qual possa se reconhecer e pelo qual consiga sentir o mundo para nele poder viver. Algo que não pode ser dado pela matéria em si mesma, mas pela concepção que sobre ela o artista oferece–o transcendente à matéria. Pedro Gonzaga nos oferece, com efeito, a sua tentativa. A tentativa de compreender o que é o homem e o que é a vida humana. Não seriam isso também a Ciência e a Filosofia, tentativas? Talvez não. Mas isso é que é a Poesia.

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