ainda

ainda agora havia o verão
a imprevista timidez de teus dedos
um cheiro vago de alfazema
o baque mudo de tuas roupas
a maciez desfeita do vestido
e então a pele retesa e escura
e teu sorriso feito a noite
que chega mansa e aberta

ainda agora havia o modo
como enlaçavas minhas costas
com uma força inconcebível
oferecendo-me o sal
da água do mar em teu pescoço
e um par de olhos sedentos
tua respiração assim próxima
sopro em que ardia o sol
da hora em que ninguém se expõe

ainda agora havia o verão
e não o silêncio da estrada
não este carro sem memória
de onde ao longe se avista –
pior seria o deter-se
a mesma casa de madeira
a mesma veneziana rompida
que nenhum inquilino se ocupou de arrumar

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Sobre pedrogonzaga

Músico, professor, tradutor e azarão da escrita. Ver todos os artigos de pedrogonzaga

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