abdullah

abdullah vende tapetes 
há cinco séculos
numa pequena ladeira
na istambul ocidental

chama de sobrinhos
a uns escravos que abrem
luminosas peças
que levitam no ar

abdullah nos ocupa as mãos
com um chá de maçã
que não vai esfriar
antes que alguma venda
possa uni-lo a esses brasileiros

às objeções de minha mãe
ele aplica um madame
tal fazia com as francesas
no século dezenove

em sonhos abdulah
trabalha ainda para o sultão
queimam ao sol branco
as muralhas de constantinopla
pequeno segue o pai
por uma tecelagem úmida
à beira do mar negro

abdullah lembra que
as mãos de sua avó
tinham a mesma textura
dos melhores tapetes

cinco séculos de boas vendas
mas hoje não terá sorte
as companhias aéreas
mais do que os cruzados
ameaçam-lhe o negócio

nem mesmo sua habilidade
de converter metros de cores
numa bolsa de trinta centímetros
é capaz de adoçar 
as temerosas sicárias
da esquadra ryanair

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Sobre pedrogonzaga

Músico, professor, tradutor e azarão da escrita. Ver todos os artigos de pedrogonzaga

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