velar

depois que ela dorme
desprotegida e serenada
volto a ligar a televisão
azulada forma de abajur
para um corpo que redescubro
com o ardil de mil devassos
metade esguia de menina
metade robusta de coxas
exposta para mim de bruços
os cabelos crescida planta
de ouro o suave arco do dorso
e o vão que os dedos recebe
sempre secreta fonte de mistério
maciez que a carne só ali assume
eu que já não dormirei
doente do sangue
tão logo eu arisco
tua respiração branda
tão logo eu abrandado
teu gemido abrupto de sonho
e me aperto mutado em abraço
para que me entendas carícia
para que não saibas do desespero
jamais nem do risco de ver cindir 
o casco de um navio que já singra 
lento umas águas turvas e verdes 
sob um céu em que o cinza
assume um mortiço tom de violeta
Anúncios

Sobre pedrogonzaga

Músico, professor, tradutor e azarão da escrita. Ver todos os artigos de pedrogonzaga

Uma resposta para “velar

  • Leitor

    Professor, em primeiro lugar gostaria de agradecer pela resposta, inspiradora, na verdade, que o senhor me deu. “Fracasso da linguagem…” ~ isso me deu muito o que pensar…sinceramente, a melhor definição que eu já vi. Acho que isso vai me ajudar bastante nos próximos escritos. Só me falta digerir emocionalmente a informação =) ~ Quanto a esse teu poema, p’rá mim é o melhor dentre os que o senhor postou nesses últimos dias (se bem que nem sei se é permitido dizer se um é melhor do que o outro =S). Só sei que todos os poemas do senhor que envolvem uma mulher tem um sentimento profundamente contemplativo, um mental carnal mais que carnal mental, alguma coisa que faz da mulher uma coisa muito bela, não intocável, mas venerável…não sei…só sei que admiro muito esse teu tipo de poema, e esse teu me trouxe diversas sensações, como que nublando a minha mente com as tuas ideias (ou emoções), criando uma imagem esfumaçada em mim, muito mais percebida pelos sentidos que pela lógica pura das palavras em si. Misturas muito bem feitas delas, aliás. Parabéns, mais uma vez =) ~

    Vou postar um que fiz hoje; abraço, professor, até a próxima.

    Descoberta

    logo ao te ver, tentei pensar,
    tentei compreender o que se passava,
    busquei bem fundas teorias
    assuntos de ciência, psicofísica,
    para-qualquer coisa,
    mas nada disso;

    tu continuava andando, e o tempo junto,
    no compasso das tuas pernas, mundo…
    tudo resumido ali, na espera sôfrega da alma,
    sacrificada cognitivamente nesse instante,
    p’rá nada…

    ah…”ela olhou p’rá mim…”

    um gelo que perpassa todo o cérebro,
    para os pensantes;
    “sim, isto é sentir, essa é a vida!”
    e não havia nome ainda,
    eram os teus olhos, o teu cabelo,
    as tuas pernas, eu repito,
    mas não havia um nome; “amor?”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: