as coisas

as coisas envelhecem em suave contorno
as coisas envelhecem com seu envelhecer soturno de coisa
rompem-se plásticas
lascam-se secas de sangue
quebram-se osso sintético
exclusivo reino de nossa invenção
livres da sensibilidade animal
livres de seivas e dos oxigênios
livres da pureza das pedras
submetidas à gordura de tantos dedos
úteis e obsoletas
última medida do humano
livre da cínica consideração
as coisas serão descartadas –
a máquina de fazer pipocas
cuja lâmpada não acende
o computador msx caduco
da memória que nunca teve
o relógio g-shock capaz de mergulhar
a quilométricas profundidades
o robô castelhano que só sabia
garboso dizer ao premir de um botão 
yo soy el más fuerte de todos

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Sobre pedrogonzaga

Músico, professor, tradutor e azarão da escrita. Ver todos os artigos de pedrogonzaga

3 respostas para “as coisas

  • Leitor

    Me fez pensar que assim também é com o corpo…por isso que esse princípio além que faz de nós humanos, a que alguns chamam espírito, deve de ser diferente, a máquina e a vida….espero que essa diferença nos traga rumos diferenciados, também…se bem que essa passagem “última medida do humano”, dá até um frio na barriga; mas, ora, eu penso! ‘espero que isso signifique alguma coisa’ ~ no fim das contas, somos medidos como máquinas, seria isso, professor? Pela utilidade ou não? E o fim, levando-se para o campo materialista, é quase o mesmo, com a diferença de que há neles uma vantagem:

    “as coisas envelhecem em suave contorno
    as coisas envelhecem com seu envelhecer soturno de coisa
    rompem-se plásticas
    lascam-se secas de sangue
    quebram-se osso sintético
    exclusivo reino de nossa invenção
    livres da sensibilidade animal
    livres de seivas e dos oxigênios
    livres da pureza das pedras”

    ou seja, elas não apodrecem como nós…sei que há várias interpretações, mas, pelo que estou vendo, é realmente filosófico e profundo, profundo e filosófico a ponto de ser poético =) Parabéns, mais uma vez ~ ah, e acho que o meu natal vai ser o livro do senhor

    Vou postar uma outra poesia, pelo vezo da troca:

    Sonho melancólico

    o sono, a se arrastar comigo pelo dia,
    faz-se o meu companheiro etéreo
    e a cada passo, inconsciente, eis um mistério
    vindo da noite mal dormida

    assim eu passo pela vida
    tal qual se tudo fosse um devaneio eterno
    e o mundo vai passando, todo incerto;
    dormir desperto é minha sina

    da mórbida languidez estou prostrado
    da preguiça figadal, da letargia;
    o meu dormir é um fenecer profundo

    moroso é o caminhar ora falado
    mas, mais do que preguiça, é da melancolia
    que todo dia estou p’rá desabar no mundo

    estou cansado…cansado e vagabundo…

    “só um auto-retrato =)” ~ eu sei que é mais um soneto (que é chato), mas depois eu vou mandando algumas poesias menos engessadas. Abraço, professor.

  • Leitor

    Professor, eu queria fazer uma pergunta p’ro senhor. O senhor acha que só atavés de metáforas que nos remetam à sinesteisa é que é possível transformar o poema em algo que expresse sentimento? Ou há outra forma? Me parece uma forma um pouco suja de fazer as coisas, apenas pelo jogo de palavras, como se fôssemos só alguns sentidos se misturando; hoje eu li isso daqui

    “Agora, meu tom é de confidência.
    Minha voz é um riacho profundo na imensidão
    Da noite: e um sussurro sincero”

    Quer dizer, é bonito, mas então a poesia se resumiria à esse jogo de palavras floreando um tema qualquer? Não sei, mas fiquei meio triste de pensar nisso, porque qualquer um pode dizer que os “olhos beijaram” ou que “as mãos lhe viram por baixo”; sabe, esse tipo de coisa é muito simples, é só puxar um pouquinho pelo inconsciente e está feito. Eu sempre procurei fugir disso, buscando alguma coisa além no sentir, mas, então, fica a pergunta, professor: essa casca simples do jogo das palavras floreando um certo tema é no que se resume a poesia? Bem, talvez seja necessário que seja assim mesmo p’rá que a poesia se faça no reboar do peito; entretanto, um gatilho quase tão vulgar quanto uma fórmula matemática? Fico triste de pensar assim, mas, no fim, talvez seja preciso aceitar, e eu é que estou divagando por demais da conta. Se o senhor puder me dizer o que acha, se estou muito enganado, então, agradeço. Abraço =)

    *ah, agora eu li isso daqui, de um cara chamado Federico García Lorca: “a poesia é a união de duas palavras que nunca se supôs que se pudessem juntar e que formam uma espécie de mistério”. Eu nem se eu apago tudo e dou-me por satisfeito, mas a opinião do senhor certamente que será muito importante. Posso considerar o poema como esse jogo, percebendo que não é tão fácil assim, apesar das fórmulas, e percebendo também que até a música tem suas fórmulas, até certo ponto…sei lá….a sinestesia talvez seja um ponto a ser buscado em qualquer área da arte, como sendo a integração dos sentidos, a intensificação do ser em si, é isso? No fim das contas, divaguei muito, me perdi, mas ainda assim gostaria de saber um pouco sobre a opinião do senhor sobre mais ou menos o que eu disse, muito obrigado. =)

    • pedrogonzaga

      Bem, meu caro amigo, não creio que a poesia seja apenas esse jogo. Que esse mistério do Lorca é importante, não há dúvidas disso. As metáforas põem fogo à língua, renovam-na, mas não é apenas isso a poesia. Ela também transforma a estrutura da expressão dos enunciados, criando rupturas sintáticas insuspeitas. Por vezes, também é uma luta em encontrar a expressão certa que defina, que particularize. Mas estou com o Amado Alonso, crítico espanhol, que vê o poder de elencar as coisas que querem dizer. Escolher as coisas, as descrições sentimentalmente, para que depois essas descrições possam dar matéria, dar corpo aos sentimentos. Mas sempre haverá o mistério. E isso é a poesia. O fracasso da linguagem. O fracasso glorioso.

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