dias

dias em que a experiência humana parece limitada
o café da esquina a servir o mesmo espresso aguado
milênios depois que as aves deixarem de existir

dias em que as obras fazem barulho demais
e os carros se engarrafam como peixes na rede
mas não há nenhum pescador e o mar secou

dias em que todas as pessoas saem de filmes americanos
o jeca faceiro a loira peituda o careca bandido
a criança engomada já com os abdominais chapados

dias em que os insetos se assanham e isso é o calor
e as carnes e as fossas transbordam e tudo está velho
enquanto sobre um céu turvo brilham estrelas indiferentes

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Sobre pedrogonzaga

Músico, professor, tradutor e azarão da escrita. Ver todos os artigos de pedrogonzaga

2 respostas para “dias

  • Leitor

    E ai, professor. Bem, eu não tenho Facebook, mas, se for do seu interesse também, eu posso trocar poesias com o senhor por aqui mesmo. Fiquei muito feliz de encontrar com o senhor na rua; a melhor coisa é conversar com quem tem interesses em comum. Sinceramente, não conheço ninguém com interesse em poesias – vez em quando, alugo a minha mãe, mas percebo que ela pensa “hum, deveria era estar estudando…”; quanto às minhas composições, é quase a mesma coisa. Bem, p’rá quebrar o gelo, então, já mando agora uma que fiz hoje mesmo, e que postei no Yahoo Respostas (há alguns meses atrás senti que era a hora de dividir com alguém, no intuito do Feedback e da comunhão). Se o senhor quiser ver as poesias que já postei por lá, basta entrar aqui http://br.answers.yahoo.com/activity?show=WBpeexOLaa E eu agradeço muito pela atenção que o senhor me deu na rua, e já me dera lendo aqueles poemas ano passado. Sei que tens milhares de coisas a fazer, e isso mesmo traz ainda mais valor a essas gentilezas. Muito obrigado

    Soneto ao nada

    Escamoteia-se às palavras emoção
    e o doce e o amargo se confundem, nulos,
    na frialdade então imposta ao coração,
    que faz dessas palavras o seu próprio túmulo…

    mais um soneto se desenha agora, surdo,
    pois incapaz de ouvir do peito a sua paixão,
    mas que sonoro ainda, creias, toca fundo
    a alma daquele a quem rareia a atenção

    e tudo aqui se desenrola ritmado
    para agradar o ouvido ao ritmo velado
    sem dar-se conta de “afinal, do que se trata?”

    já vem chegando por agora a última estrofe
    e se percebe à advertência a rima pobre
    mas, no final, descobre-se: “rimar já basta”

    Sabe, professor, o que eu mais quero é encontrar esse eu essencialmente poético que o senhor já encontrou a muito tempo. Coisas como a segunda estrofe dessa tua poesia são de um achado brilhante. Sem tomar demasiado o teu tempo, eu torço por ir encontrando isso em mim. Sei que a melhor maneira é lendo, mas uma troca de opiniões certamente que poderá acelerar o processo; claro, sem compromissos rígidos, como deve ser para um poeta =)

    • pedrogonzaga

      Meu velho, isso é um processo. Mas não te preocupa, quando descobrir, tu vai saber. É quase como um encontro, como se a gente fosse encontrando um foco. E então tudo se afia e a gente consegue passar a visão de mundo de um modo quase independente de nosso próprio controle. Mas tu está indo bem. E o soneto é um bom treinamento, a forma fixa exige concentração. Um forte abraço.

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