compras

a mulher empurra as compras
quase como se não tocasse a barra
do arcabouço metálico sobre rodas
sempre à beira de descarrilar
de uns invisíveis trilhos de cerâmica

escolhe as coisas nas prateleiras
com a distraída precisão prática
que usa para masturbar o marido
um pouco aborrecida ao perceber
o necessário retoque do esmalte

passa bem próxima a mim
quase creio em sua depressão
feita de cereais e aspargos e lichia
mas despontam uns bifes de soja
entre valentes e impiedosos pés de alface

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Sobre pedrogonzaga

Músico, professor, tradutor e azarão da escrita. Ver todos os artigos de pedrogonzaga

4 respostas para “compras

  • Leitor

    Nossa, Professor, o senhor é MUITO FODA! Desculpa o palavrão, mas, pelo amor de Deus, eu me vi ali no Zaffari, e pude entrar na vida dessas mulheres que estão, de fato, sempre ali! Putz, nem me passava pela cabeça isso, mas é verdade. A minha mãe, por exemplo, enquanto estava casada, talvez fosse uma dessas, e alguma coisa se refletia nas suas dietas e no seu silêncio angustiante…bem, só espero poder ler o teu próximo livro, que certamente deve ser um achado na vida cotidiana, também. *quanto aquela poesia que eu postei, muito obrigado por avaliá-la. O título é que se chama corredor (referindo-se ao tempo, é claro), mas eu me esqueci de dar o espaço. Estou sempre atento ao teu site, é uma das poucas coisas nos meus favoritos, além de ‘Because’ dos Beatles, um site de previsões astrais, o portal do aluno da ufrgs e outras coisas temporárias. Por isso, é de praxe acessar e ler algum poema. Um abraço, Professor.

  • Leitor

    Ah, feliz “dia do gaúcho” =) ~ eu tinha feito um soneto p’rá celebrar isso, e principalmente p’rá parecer mais gaúcho do que sou, algo além de décimo primeiro andar. Vou postar só por curiosidade, até pela troca que o comentário nos permite, néh… ~ estou tentando definir p’rá alguém algum modelo gaudério, como de um refolho meu, reflexo d’algum livro, d’alguma história ~

    Dos pampas

    Tchê, o bagual se avinca timoneiro
    de um cusco velho e um matungo acompanhado
    a encarar peleia, sempre, é bravo
    esse é o gaúcho, índio macho e galopeiro

    Gaúcho anda de faca o dia inteiro:
    “c’o esse facão eu já deitei muito macabro
    sou bom de corte, na peleia eu mato;
    nunca fugi, mas sei que o crina é mui rafeiro”

    quem se criou nos pampas é assim;
    aqui, covarde bem que não se cria,
    pois que essa vida vive de coragem

    aqui tomamos mate – muita carne,
    muita mulher, mas somos de família,
    nascemos no Rio Grande – e aqui o fim

  • Leitor

    Não tem um 20 de setembro sem chuva!

  • Leitor

    acho que é porque perdemos a guerra

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