telhas de acrílico

quase acima da mesa
nos fundos do café
a telha de acrílico ecoa
umas gotas de chuva mansa

parecem um disco antigo
e o som daquele jardim de inverno
com sua cobertura improvisada
nunca plenamente seco
onde uns olhos cinzentos
datavam minhas pretensões
com a certeza do carbono

mergulho outra vez na sesta
junto ao teu corpo magro
nos fundos do jardim
para além do bar ruidoso
naquela única vez teu corpo
despojado de ornamentos
espartana sem mais arco
que a cintura da saia azul
também havia a percussão
lá desses tantos dedos

dizem – o tempo modifica
tudo o que se vê
mas muda muito menos
o som da tarde chuvosa
quando caem as gotas
sobre o leitoso acrílico
no meio sono da mesa do café
o cheiro do sabonete phebo vermelho
deixa a lista dos desaparecidos
desde há vinte estações

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Sobre pedrogonzaga

Músico, professor, tradutor e azarão da escrita. Ver todos os artigos de pedrogonzaga

2 respostas para “telhas de acrílico

  • Leitor

    Eu queria fazer poesias assim, pegando bem lá do fundo da minha vida, bem na essência, como materializando mesmo a confusão das memórias, das sensações, etc. Essa sinestesia, essas relações das palavras, tão fortuitas, como o som da chuva mansa na telha e o disco de vinil…o que dizer? Eu ainda não sei se já saiu o teu livro novo, não vi a capa dele aqui no site, e não achei no google alguma notícia dizendo se sim. Acaso já saiu? Professor, eu havia postado na última poesia um poema, buscando acertar nele as dicas que o senhor me deu; bem, não sei se o senhor o viu ou não, mas, em todo caso, vou postá-lo novamente, reiterando a questão de que, sabendo do quão atarefado um professor-escritor-tradutor-poeta (enfim…) pode ser, apenas quando tiveres tempo….abraço =)

    corredor
    a cadeira vazia
    o monólogo da televisão
    algumas coisas instrospectivas
    isso é parte do teu valor, que falta
    a companhia doce, calma
    alguma conversa banal.
    Os grilos na janela
    lembram uma discussão gostosa;
    sim, sinal de ti, que lembro, que passa.
    não estar é mais do que ir embora
    é viver-te ao contrário,
    na janta solitária
    no trânsito sem sentido:
    p’rá que voltar p’rá casa?
    Esse é um caso sem volta,
    pois foi-se o tempo, perdido
    e a gente só envelhece
    e tu (que triste!) está morta,
    e o que se foi correndo se esquece…

    • pedrogonzaga

      Opa!
      Só agora vi a mensagem. O livro sai logo agora em outubro, mas vou divulgar aqui no site. Sempre penso que um caminho para poesia é esse de revelar a materialidade sensorial do instante.
      Quanto ao teu poema, acho que tem ótimos achados. não estar é mais do que ir embora/é viver-te ao contrário. Penso que poderia usar mais a televisão do início, e tentar focar mais no final para não deixar morrer o momento alto que consegues no meio.
      Um forte abraço,
      Pedro

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