o apartamento emprestado

entramos juntos no apartamento
era madrugada e não sabíamos
onde ficava o quadro de luz

ergui as persianas das janelas da sala
as luzes da cidade douraram teus cabelos
uma capa áspera de tecido cru
cobria o sofá em que te derrubei
e tua boca tinha um gosto doce
de vodca e frutas vermelhas

minhas mãos avançaram cegas
tua camiseta teu sutiã ainda úmidos
do jeito como frenética dançavas
tuas calças frouxas e o vão livre
da barra erguida pelos ossos dos quadris

no meio do silêncio uniforme
o som irreal de tua respiração
ecoou no abismo em que começamos a cair
abraçados de tantas maneiras
feridos por unhas e dentes até acabarmos
envoltos pela selva de móveis estranhos –
nem os olhos acostumados os viam
e que na manhã seguinte testemunhariam calados
a partida de dois jovens que se conheceram às escuras
e que nunca chegariam a se reconhecer às claras

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Sobre pedrogonzaga

Músico, professor, tradutor e azarão da escrita. Ver todos os artigos de pedrogonzaga

2 respostas para “o apartamento emprestado

  • Leitor

    A poesia bem que poderia se chamar ” Sexta-feira”. xD muito boa mesmo. A tua interpretação das coisas sempre nos foge ao vivo, de tão reconditas que estão à luz. Mas, fazer o que, essa é a qualidade que só os poetas têm.

    • pedrogonzaga

      Obrigado por teu retorno. Pior que também não tenho acesso a essas percepções para a vida, ehehehe. É só no poema que elas vêm. Pertencem só ao poeta.

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