para além dos bancos de areia prateada

para além dos bancos de areia prateada
cobertos por um capim rasteiro e triste
está o mar da república oriental
feito de gelo e tardes desertas
saudoso de seus generais e caudilhos
sem memória dos corpos
que ali entraram no verão
à espera de que o sol fosse mais
que mera decoração em souvenirs
e caixas de alfajor na zona franca

dentro do carro ouvimos o vento –
eolo perdido no fim do mundo
batendo nos vidros com a insistência
anacrônica de um vendedor de enciclopédias

apertamos nossas mãos
e eu vejo a mancha de sangue
entre tuas coxas
alastrando-se muito devagar

mais um mês que estamos juntos,
no rádio uma canção antiga
promete em inglês sulista
os encantos do amor eterno

olhamos ao mesmo tempo através do pára-brisa
pequenas gotas de maresia cintilam
como pedras não lapidadas
um sorriso se forma em teus lábios
a visão de súbito se me liquefaz

e então um locutor (talvez eu mesmo)
diz entre soturno e zombeteiro:
señor, não se chega impunemente
ao trigésimo quinto inverno.

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Sobre pedrogonzaga

Músico, professor, tradutor e azarão da escrita. Ver todos os artigos de pedrogonzaga

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