assédio

enquanto bebemos vinho
os visigodos assediam nossa mesa –
em suas bocas mastigam dentes fortes
têm sempre tanta coisa a dizer,
ferozes como paulo de tarso
mas infinitamente menos sábios

a luz branca do salão
ergue em teus cabelos
um incendio que só eu vejo
clamando de minhas mãos
um sacrifício dócil
previsto em outras noites de inverno
quando às facas de pedra
não coube a destreza de nos imolar
não havia ainda a epístola
a lâmina dos versículos
a ferida aberta do verbo
um evangelho
um átila
uma queda

e assim nos entregávamos
ingênuos,
à sabedoria da carne
protegidos por um muro,
odre de vinho perdurável
tão distinto da uva acerba
que agora nossos lábios vilifica
expondo-nos à nudez do escárnio
da tia que coordena o buffet a quilo.

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Sobre pedrogonzaga

Músico, professor, tradutor e azarão da escrita. Ver todos os artigos de pedrogonzaga

2 respostas para “assédio

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