o sábio

havia um homem sábio
cuja voz pouco se escutava.
cada palavra germinada
em seus lábios
iluminava o mundo
com a luz branca
de uma solda de estanho
e alguma coisa, de fato,
terminava unida e nova
na mente de quem o ouvia.

sofria o sábio, no entanto,
de um problema insolúvel,
além dos cálculos renais:
erguia-se em brasas
em suas entranhas
um prazer desmedido
da sabedoria de suas próprias palavras,
sensação que o velho livro condenava
sob um termo hediondo.

em suas noites abertas
alimentava-o apenas um consolo:
a parcimónia poderia salvá-lo.

já seus discípulos
rápidos e sedentos
dormiam tranquilos
vicejavam boquirrotos
acreditavam que a sabedoria do mestre
estava na vaidade e não na economia
espalhavam por toda parte
palavras cheia de luz
mas incapazes de solidificar.

a cada novo vanilóquio
uma nova semente
para o sábio se perdia.
houve um dia, afinal,
em que não disse mais nada
o que só fez aumentar
o poder de difusão
de sua anti-obra.

sozinho em sua cela
a certa altura da madrugada
em noites em que a aparente
sabedoria do mundo
cintila em todas as metrópoles
alguns afirmam ser possível
escutar seus murmúrios.
de súbito, na escuridão do claustro
uma pedra se une a outra pedra
uma flor se ergue flor do musgo
a umidade nas paredes
corre em direção ao mar
e o ar se carboniza
num improvável diamante.

Anúncios

Sobre pedrogonzaga

Músico, professor, tradutor e azarão da escrita. Ver todos os artigos de pedrogonzaga

2 respostas para “o sábio

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: