o sinal

estávamos na varanda do albergue e era tarde
os lábios apertados, ela olhava para a igreja
calada na escuridão
não lembro de onde eu vinha
mas guardo a dor viva em meus pés
caminhadas a esmo pela velha cidade
tabuletas em cirílico a mim vedadas
todos dormiam
e o saguão atrás de nós supurava
a imobilidade palpável das casas vazias.
soavam apenas os dedos de tuas mãos
percutindo nos braços da poltrona de madeira
um ritmo conhecido
tuas pernas recolhidas
teus pés descalços
flores brancas
como quis, meu deus
te levar comigo para o quarto de solteiro
com banheiro privativo
naquela noite

onde habita em nós a certeza vicária
de que teremos sempre uma chance?
acendes um cigarro e me olhas
fumas sem pressa
teu rosto se ilumina
tibiamente
ofereço-te meu melhor sorriso
soltas a fumaça pelo nariz
sufoca-me a esperança de um sinal
que eu espero
a despeito dos pés em chamas
de tantos erros passados
das apostas perdidas
das tabuletas ominosas
em todas as línguas da terra.

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Sobre pedrogonzaga

Músico, professor, tradutor e azarão da escrita. Ver todos os artigos de pedrogonzaga

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