madrugada, 2011

madrugada,
deitam-se ao teu lado
os corpos prometidos
na manhã de 1992
na tarde de 1998
na noite de 2010
visitam-te fantasmas
roçam-te a pele
não lençóis
mas as mortalhas
que tomaste à terra santa
passado vago
que convertes
em relíquia,
fantasiosa alameda
por onde desfilas
em carro aberto,
cercado de flores
carícias
guirnaldas
em cabelos
de ouro
madeira
e rubi
enquanto
d. afonso henriques
exige que mates
o mouro
no livro de história
desfalecido
sobre teu peito.

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Sobre pedrogonzaga

Músico, professor, tradutor e azarão da escrita. Ver todos os artigos de pedrogonzaga

2 respostas para “madrugada, 2011

  • Paulo Briguet

    Seu poema expressa uma ligação muito especial entre o tempo subjetivo, o tempo espiritual e o tempo histórico. Lençol/mortalha/terra santa/D. Afonso Henriques é uma impressionante sequência de imagens. Joyce tentava acordar do pesadelo da história; você mostra que estamos mergulhados nele. Lembrou-me também um poema de Mandelstam em que se pergunta a um alguém que horas são e a pessoa responde: “Eternidade”. Abraço.

    • pedrogonzaga

      Paulo, meu caro

      Obrigado mais uma vez pela excelente leitura. Tinha como ideia essa tentativa de transformar as perdas em patrimônio, utilizando a falsificação de meros objetos e sua conversão em relíquias preciosas, como aquelas trazidas na época das cruzadas. Há também o delírio do tu do poema de querer viver, no limiar entre o sonho e a realidade, uma vida maior do que a temporal. Um grande abraço.

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