nossos mortos

nossos mortos vestem,
por invisível regimento,
a macabra fantasia
de permanecerem iguais
em nossa memória.

aqui está meu primo
a fazer dezoito anos
a cada novo outono
o mesmo riso
zombeteiro nos lábios,
Pedro, seu panaca,
deixa de ser palerma
não é assim que se chega
numa mulher.

aqui está minha avó,
como na última manhã
em que a vi,
fumando na cozinha penumbrosa
em Taquara,
os olhos vidrados e perdidos
olhos miúdos de meu pai
futuros olhos meus
atrás daqueles óculos
de lentes cor de oliva.

aqui também está o amigo
que tocava piano
dezoito horas a fio –
eu que só podia quatro!
que não cuidou
em sua paixão pela música
que poderia ficar doente da vida.

vejo-os todos,
atores numa reprise
enquanto somente eu
envelheço,
meus mortos,
aqui em meu apartamento
num bairro de mortos.

nossos mortos…

pensando bem
nossos mortos
livres da carne
não são fantasmas
não são imagens
talvez não sejam
sequer memórias,
são fragmentos
cruzes num mapa,
cidades próximas
cinematográficas
que ao longo da vida
se tivermos o bilhete
(e isto sim é a memória)
poderemos sempre revisitar.

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Sobre pedrogonzaga

Músico, professor, tradutor e azarão da escrita. Ver todos os artigos de pedrogonzaga

7 respostas para “nossos mortos

  • Karen Raquel

    Lindos versos, Pedro!!!
    Versos que me fizeram, também, lembrar de meus mortos.
    Lindos versos…tocantes palavras.

  • Paulo Briguet

    Em poema recente, você chamou os eternos mortos em nosso socorro contra a vulgaridade dos mortos-vivos. Agora, nesta elegia paralela, você evoca os mortos íntimos, aqueles que habitam o coração de cada um. Talvez a marca de um verdadeiro poeta seja o fato de sempre escrever o mesmo poema. Parabéns.

    • pedrogonzaga

      Paulo,
      Que belo comentário que fizeste. Não havia percebido este paralelismo. O que só prova que a poesia é, das formas literárias, aquela que mais depende de um leitor. Obrigado.

  • rosane pereira

    Pedro, cada vez mais teus poemas me levam a viajar. Zeus meu, que maravilha!
    É mesmo pra deixar na cabeceira, quando teu livro sair, pra virar a leitura nossa de cada noite. Obrigada!
    beijo
    Rosane

  • Isadora

    Que maravilha, sor! Não sei nem meio pingo de literatura para dizer algo muito maior do que “que maravilha”.. Ainda estou na fase – e talvez não saia dela hehe – na qual minha opinião se limita a classificar as leituras pelos arrepios.. Senti no mínimo dois! Adorei.

    • pedrogonzaga

      Isa,
      Que bom saber que tu gostou deste poema. É um de meus preferidos. O que importa na leitura da poesia é o que se sente. E vou te dizer, não há teoria ou conhecimento de literatura que substitua ou supere esse arrepio. É o que a gente deve sempre buscar, porque, de resto, eras uma ótima aluna e leitora já lá na época do Leo, e deve estar ainda melhor agora, de modo que sobra mesmo o efeito da leitura. E o efeito me deixou muito feliz. Um grande abraço.

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