a ligação

em algum lugar
nos calabouços
desse castelo asséptico
espera o amigo a ligação
que poderá salvá-lo
da conversa miúda
que lhe estende
com lúbrica pena
o companheiro do leito ao lado,
do brando sarcasmo das enfermeiras
que já puseram olho em sua solidão,
da longa noite que se avizinha
assim que as portas forem fechadas,
quando já ninguém mais circulará,
depois que arrefecerem
as visitas,
as piadas dos residentes,
e a própria vida
com sua esperança quente
tiver percorrido o último
dos corredores.

restará então
no ar
o vago cheiro dos medicamentos,
o odor de morte
que os desinfetantes
afetam esconder.

lá dentro
atrás da porta 402
está o amigo que um dia amamos
lá está o patrimônio
de tantos almoços
de tantos cafés na juventude
lá está o tempo
e o telefone mudo à cabeceira.

nunca saberemos,
nossa ignorância nos absolverá.
dedicaremos a ele
a tristeza de uma data,
contaremos
garbosos
uma boa anedota que
provará nossa camaradagem
de outrora,
mas, ah, hoje,
neste instante,
enquanto avança o verso
chegaremos simplesmente
a este ponto final.

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Sobre pedrogonzaga

Músico, professor, tradutor e azarão da escrita. Ver todos os artigos de pedrogonzaga

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