foi num café do centro

foi num café do centro
há muito passara a primeira juventude
e por isso,
porque certa doçura
só se colhe na alvorada
havia no reencontro dos dois
aquele tipo de aspereza vaga
que floresce verde na penumbra

aos poucos,
ela falou de suas conquistas profissionais
do primeiro casamento
do segundo casamento
ele falava menos
o divórcio ainda vivo
uma criança perdida,
o emprego público
que tomara depois da faculdade

neste café do centro,
que ameaça apagar as luzes
terminando por calar as vozes
ambos têm a sensação de que a vida
é um veloz desperdiçar de tudo

onde estava aquele desejo que um dia os animara?
quão ridícula lhes parecia agora
a esperança de um beijo
de um encontro furtivo ao fim da tarde

o garçom volta outra vez
pergunta sem esconder o enfado
se ainda vão querer alguma coisa,
comunica que a cozinha
está prestes a fechar

os dois se olham e se desolham
se pudessem pedir alguma coisa,
o que pediriam?

o que se pode pedir, meu deus,
quando o café já vai cerrando as portas?

Anúncios

Sobre pedrogonzaga

Músico, professor, tradutor e azarão da escrita. Ver todos os artigos de pedrogonzaga

3 respostas para “foi num café do centro

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: