Assunção

Entregue à rumorosa soledade das ruas
do antigo bairro em que fui criança
sou visitante e ao mesmo tempo parte de tudo
sou o quarto ainda disposto
à velha maneira
na casa de minha mãe.

Solidão amada das ruas conhecidas
tão iguais a sempre
tão feitas de plasma da memória
daquilo que é certeza fora do tempo,
e não fosse o reflexo
que me devolve a imensa vidraça –
minha cabeça nua sob o sol –
poderia jurar ter dez anos mais uma vez.

Ah, crueldade da natureza cíclica
árvores verdes no calor estival
vento de fim de tarde que por vezes sopra
de um rio marrom e constante
Guaíba outra vez revisto,
que horrenda cidade é esta que se ergue
às tuas margens e que te dá as costas?
Nas ruas do subúrbio de minha infância
segues exposto como há milênios
fere-te apenas a feia fábrica na outra margem.

Caminho a passos fortes,
tenho a força de um homem ainda jovem.
Sinto o suor untar meus braços sãos
gruda-se-me a camiseta na pele
enquanto chego às ruas mais altas.

Volto a cabeça para o outro lado
e entre duas casas à venda
(um dia também nossa casa será vendida)
revela-se,
através do terreno baldio,
uma Porto Alegre indiferente ao progresso
mesmo quando lhe cravam uma torre verde
gigantesco espinho cintilante
em seu corpo indolente.
Vinte e cinco verões se passaram, penso.
Ontem joguei bola aqui com meu irmão,
fomos de fato felizes.
Tomo um gole de água,
depois outro,
contudo,
um gosto vago,
fúnebre,
insiste em permanecer.

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Sobre pedrogonzaga

Músico, professor, tradutor e azarão da escrita. Ver todos os artigos de pedrogonzaga

2 respostas para “Assunção

  • barbara

    Pedro!

    talvez esse poema venha de antes, mas é certo que chegou aqui feito brinde com toda essa atmosfera de início e fim, que atordoa no final de ano…
    adorei a descrição do tempo…
    -que se ergue às tuas margens e que te dá as costas?
    -um gosto vago insiste em permanecer

    e por sorte te vi no camarote falando de lembranças…boa aparição em teus intrigantes desejos!

    beijos e feliz ano novo!

    • pedrogonzaga

      Bárbara,
      Obrigado por tua mensagem e pela tua leitura tão forte do poema. É mesmo fruto de um período de reflexão sobre a passagem do tempo, um poema dessa fase entre início e fim.
      Um grande abraço e um ótimo 2011.
      ps: o Camarote é sempre improviso, ehe.

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