Um verso roubado de Huizinga

quando o mundo era quinze anos mais jovem,
costumávamos pensar que chegaria a hora:
o sangue nas artérias não conta então as voltas que dá –
bom sangue
inútil sangue
todas as células que decidem ser seiva
enquanto opera o fogo-baixo
do escárnio.
eu me pergunto:
de que serve o estoicismo tomado de Marco Aurélio
de quê, meu deus, para quê?
do corpo toda a energia se perde ou se dissipa
não se pode querer numa quarta-feira de 2010
a vida que vibrava em meus pés
na prodigalidade inteira dos meus 8 anos
não há acumulação
não há reservas.
poderá o desejo reconhecer a si mesmo em 2025?
quinze anos depois
e cá estão apenas os escombros do desejo
lenha calcinada, nó de pinho negro entre as cinzas claras.
quem poderia prevê-lo,
me diga,
ao crepitar da chama
que nos temperava
quando o mundo era quinze anos mais jovem?

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Sobre pedrogonzaga

Músico, professor, tradutor e azarão da escrita. Ver todos os artigos de pedrogonzaga

2 respostas para “Um verso roubado de Huizinga

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