Herança

Meu avô
Gomercindo Gonzaga
era um homem forte
mãos como patas
de arrancar da terra
as pedras,
capaz de destelhar
as casas dos inquilinos
em atraso com o aluguel
sem deixar-se comover ou enganar
pelos apelos de
malandros
prostitutas
colonos que haviam abandonado
o fundo do interior
em busca de um futuro
em Taquara.

Meu avô
Gomercindo Gonzaga
brincava com sua dentadura
agitava diante de nós
seus maços de dinheiro,
ordenados hierarquicamente
das notas miúdas
até os barões do
Rio Branco,
altaneiros
seguros de si
em seus bastos
bigodes de neve.

Não lembro nunca
de tê-lo visto mais feliz
do que nessas ocasiões.
Depois viriam os três derrames,
os filhos que abandonariam
suas conquistas:
dois ou três pedaços de campo,
um morro de casas
ilícitas,
uma pedreira em que só os negros
– e ele –
aguentavam trabalhar
submetidos à atrocidade
das pedras laranjas
cuja poeira se entranhava
definitivamente
na carne.

Seus filhos se tornaram professores,
seu neto,
homem da cidade moderna,
foi domesticado,
mantém os dentes saudáveis
incapaz de vencer uma mão de cartas
largado sobre a cama
numa quarta-feira à tarde
olhando para o teto,
paralisado,
cogitando tantos universos
enquanto a lâmpada cristalina
segue queimada.

Herdei de meu avô
Gomercindo Gonzaga
seus ossos sólidos
uns olhos pequenos,
zombeteiros e ladinos,
mãos capazes de rasgar a pedra
e pés de rinoceronte.
Alguma coisa,
porém,
se perdeu no caminho.

Aos 34 anos,
com meus dentes perfeitos,
não tive o gosto,
de morder a carne da vida.
Não vi brilhar o amor comprado
nos olhos de uma mulher,
não ergui as paredes deste quarto.
Os calos em minhas mãos
são herança das barras da academia.
Não sei, meu avô,
ordenhar vaca,
montar a cavalo,
dirigir caminhão,
blefar na hora certa.
Uma vez tive um maço de notas de cinquenta reais,
mas o malgastei.

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Sobre pedrogonzaga

Músico, professor, tradutor e azarão da escrita. Ver todos os artigos de pedrogonzaga

4 respostas para “Herança

  • barbara

    esse poema me fez lembrar que as vezes penso morar em um hotel, estando em minha própria casa.

    gracias pela passagem!

    • pedrogonzaga

      Bárbara, é uma sensação que se revela ainda mais poderosa naquele poema do Drummond, A bruxa. Obrigado pela mensagem.

      • barbara

        la bruxa me llevo hasta juarroz…

        poema vertical 56

        En una noche que debió ser lluvia
        o en el muelle de un puerto tal vez inexistente
        o en una tarde clara, sentado a una mesa sin nadie,
        se me cayó una parte mía.
        No ha dejado ningún hueco.
        Es más: pareciera algo que ha llegado
        y no algo que se ha ido.
        Pero ahora,
        en las noches sin lluvia,
        en las ciudades sin muelles,
        en las mesas sin tardes,
        me siento de repente mucho más solo
        y no me animo a palparme,
        aunque todo parezca estar en su sitio,
        quizá todavía un poco más que antes.
        Y sospecho que hubiera sido preferible
        quedarme en aquella perdida parte mía
        y no en este casi todo
        que aún sigue sin caer.

        roberto juarroz

  • pedrogonzaga

    Belo poema. Poesia infinita. Obrigado.

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