Na avenida

Do canteiro central
da avenida que traspassa o coração financeiro do Brasil
vejo o ir e vir das gentes que têm pressa.
A salvo em meu anti-rio
passam as ruidosas margens,
e penso que
fracassaram os mestres de história
com seu Marx de apostila
os sociólogos franceses
e seu amor ao povo
a namorada petista que um dia
quis cravar-me uma estrela no peito
pois não sinto nada
nem solidariedade
nem pertencimento
nem comungo com a multidão.
Meus irmãos eu conto nos dedos.
Meus amigos cabem numa mesa de jantar.
Nada sei (ou quero saber)
desses homens
dessas mulheres
que erguem edifícios
que se consomem em escritórios
diariamente
à espera de encontros furtivos
em banheiros
nas festas corporativas
atrás
talvez
de algum sentido
em percorrer
durante trinta anos
esta mesma avenida
silente
sob as solas de meus pés.

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Sobre pedrogonzaga

Músico, professor, tradutor e azarão da escrita. Ver todos os artigos de pedrogonzaga

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