O banho

Apanho teu pé molhado
que escapa
sobre a borda da banheira
e sinto nas mãos
o calor da água
e depois tua pele,
mais fresca do que quente.
Ajoelho-me
e levo aos lábios
cada um dos teus dedos
pequenos
tuas unhas têm a cor
do avesso de certas conchas,
na língua elas são
um mineral
estranho
macio
e com um leve gosto
de sabonete.
Depois
minhas mãos se elevam
nos cumes espelhados
de teu tornozelo
estreitam
o tendão evidente
que a mãe do herói
não protegeu.
De olhos fechados
subitamente
percebo que
te tornas
mais suave
que a carne
de tua perna
promete
ao final do percurso
(assim antevejo)
a amplitude
estreita de um abismo
submerso.
De olhos abertos
vejo brilhar
teu joelho
muito próximo.
À esquerda e abaixo
tua coxa termina
(ou começa)
na superfície da água –
algum sal
ou leite
turvou o líquido
em que te banhas.
Mais acima
erguem-se
redivivos
teus seios ornados por arabescos de espuma,
que se desfazem ao teu sopro.
Tuas auréolas
têm a cor
do ouro bruto
de certas igrejas esquecidas.
Logo minhas mãos continuam
sua viagem
mas então só uma segue,
a outra
menos hábil ainda que destra
estaciona junto à borda esmaltada.
Qualquer coisa
na tua serenidade
imperiosa
me conclama
a um avanço imediato.
Assim meus dedos mergulham
meu pulso se afoga
busco tua virilha
mas encontro teus pelos
ou são anêmonas?
algas presas a um
recife que esconde
uma caverna mais quente que o
calor da água
fogo dentro do fogo
dentro do fogo
em que meu dedo médio
se perde
e se aloja
para depois,
tendo percorrido
lentamente
cada parede e
cada fração milagrosa
de lava,
subir e deslizar
até um inusitado
formação coral
tesouro
que tal pirata
tomo
submeto
e redescubro
enquanto
inclinas a cabeça
contra a parede
e espalhas
teus longos cabelos molhados
sobre os azulejos brancos
e moves a brancura
tépida da água
e abres tua boca
num gemido
e abalas o continente
de teu corpo
e é só então
que o tesouro,
precedido
por um grito
e um rubor de faces,
revela-se
por completo
no fundo do mar.

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Sobre pedrogonzaga

Músico, professor, tradutor e azarão da escrita. Ver todos os artigos de pedrogonzaga

Uma resposta para “O banho

  • Marcelo Frizon

    Mestre Pedro, não precisa aprovar esse comentário. Me manda um e-mail, porque acredito que o teu e-mail que tenho aqui está desatualizado. Queria comentar uma coisa contigo. Abração e continua investindo nos versos!

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