A mulher que passa

Do outro lado da rua (sempre do outro lado)
uma mulher passa em um vestido comprido
como há muito não se costuma usar
estampado com as flores de outubro
expondo a graça de suas canelas nuas
abaixo da barra de branco bordado.

Seus braços estão descobertos
refulgem violentos à luz da manhã.
De imediato minha sensibilidade
pervertida por tantas leituras de encontros na multidão
– a mulher que passa de Baudalaire –
começa a falsificar o que vejo
sobrecarrega com palavras
o que em palavras terminará perdido.
(Se eu fosse um obreiro as coisas seriam mais fáceis,
mas a verdade é que se fosse um obreiro
não haveria nada para olhar na mulher que passa.)

É quando sopra um vento cinematográfico
desses produzidos por enormes ventiladores
e se agita o vestido e se esparramam os cabelos
desenha-se então o contorno das coxas
e suas pernas, por um instante,
parecem cobertas por duas luvas de gigantesca primavera
seus quadris e a curva de seu ventre
revelados como as formas de uma mulher se revelam
sob a justa pressão dos lençóis na cama
suspendem a obsoleta máquina de versificar
e assim eu, que havia queimado minha libido
durante tanto tempo em vulgar pornografia eletrônica
descubro que os homens do passado ainda
eram livres para imaginar.

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Sobre pedrogonzaga

Músico, professor, tradutor e azarão da escrita. Ver todos os artigos de pedrogonzaga

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