A queda

Certa vez uma prateleira de livros
desabou sobre minha cabeça
enquanto dormia.
O ruído do desmoronamento
ficou de tal maneira em mim gravado
que mesmo em sonhos ainda escuto
o rumor (que não posso ter ouvido)
e o farfalhar das folhas no ar.

Se houve barulho real naquele quarto
foi o dos golpes no chão,
em minha cabeça, em meu peito
as quedas amortecidas pelo acolchoado,
tantos clássicos nunca lidos
o Quixote em espanhol
as orações de Cícero
as elegias de Donne
um livro com cantoneira de prata
– talvez a Bíblia –
que abriu um pequeno corte em minha testa.

Por anos cultivei a ideia de uma revolta organizada
suicídio coletivo por abandono
nunca cogitei o parafuso velho
a porca enferrujada
uma mão francesa débil demais
para tanto peso.

Aqui onde estou deitado
posso ver o teto e sei que
a segurança que sinto
é tão artificial quanto qualquer outra.

Da sala, sei que o mesmo Quixote me espreita
taciturno
sobrevivente.

É bom estar seguro.
É bom não me sentir mais entre escombros.
Mas por que será
que nem sob o efeito do Rivotril
consigo dormir?

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Sobre pedrogonzaga

Músico, professor, tradutor e azarão da escrita. Ver todos os artigos de pedrogonzaga

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