O quarto toque

O telefone tocou três vezes
depois de cinco ou seis dias
sem que criatura humana
lembrasse que aqui,
revestida por uma pele expectante,
havia outra criatura humana
precária
ineficaz
paralisada ante as tecnologias
esquecida pelas legislações
por quem as operadoras de telemarketing
não abrem disputa.

Silêncio, criatura
silêncio, pois o telefone voltará a tocar.
Pensarás, é ela,
é ela outra vez.

Segue para o banho
é preciso estar limpo
vamos, espera mais um toque
alguém sabe que ainda existes
estás nu diante do espelho
estás nu como quem vai ao necrotério
e o telefone não volta a tocar.

Não era o que querias?
Que o mundo te esquecesse?
A paz tão sonhada de teus 30 anos?
Por que pareces perdido?

Ela vai ligar.

Talvez não tenhas sido rápido o bastante,
criatura humana,
por que revelaste a alguém
tua triste mania de só atender o telefone
ao quarto toque?

Ah, ainda és capaz de chorar.
Não te preocupes,
sem a chama-piloto
tudo será rápido.

Salvação?
Salvação?

O telefone!

corre
corre
corre.

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Sobre pedrogonzaga

Músico, professor, tradutor e azarão da escrita. Ver todos os artigos de pedrogonzaga

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