Um quarto em Madri

Na pequena mesa junto à janela
à luz da manha chuvosa de Madri
escrevo.

Teu pé escapa da cama,
brancura de carne
ossos e tendões que te conduz,
quase toco o gomo de cada dedo,
e estico o braço até sentir
que minha mão já te pode
abarcar.

Mais acima
o lençol confere a teu corpo
uma aparência de estátua,
mármore ardente ao toque
argila ainda moldável.

Que importa o rei de Espanha?
O Prado e o imortal Velázquez?
Reduziste o mundo todo a um cenário.
Apagaste com um só gesto
involuntário
o constrangimento
em versificar o mundo e emular
Petrarca.
Afinal,
que vergonha pode haver em cantar o amor?
Por que devemos deixar, minha senhora,
que a voz vulgar
do cantor descortês
dê o tom da glosa atual?

A chuva aperta lá fora
um cão corre sozinho pela rua
um tremor te desperta.

Te voltas e te ergues num sobressalto.
Abaixo da selva de teus cabelos
ostentas
gloriosos
teus seios frementes
duas naus de altas proas
que me conturbam o sangue.

De olhos inchados me sorris.
Nunca estiveste tão linda,
nunca,
beleza que não fossem os versos
já na lembrança
talvez atribuíssemos
apenas
à distância dos anos ou
à atmosfera de Madri.

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Sobre pedrogonzaga

Músico, professor, tradutor e azarão da escrita. Ver todos os artigos de pedrogonzaga

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