Sábado é dia de feira

Texto publicado originalmente na Revista Norte.

Arco-íris em escala de cinza

Inspecionou as unhas com cuidado. Antes havia conferido a barba, o boné abandonado ao sol para desbotar, de um vermelho que um dia fora sangue e que agora tinha a cor de um bife que tivesse sido esvaziado de seu suco por um bebê. Sorriu satisfeito. Lá estava o arco-íris em escala de cinza sob cada uma das garras. Trazia no carro uma caixinha com três tipos de terra para produzir o efeito adequado. Limpava as sobras na camiseta, que não podia parecer limpa. Mandara estampar na parte da frente uns dizeres ecológicos, atrativo inconteste à simpatia das velhotas e demais fregueses, animados por fazer sua parte para salvar o mundo.
Quando começou, dois anos atrás, apresentava-se como era, um agrônomo que tinha vendido seu pequeno apartamento em Porto Alegre para se dedicar a uma fazenda-modelo. Sempre cultivara a fantasia de plantar frutas e verduras sem o uso de produtos químicos. Sua barraca na feira era como outra qualquer. Inexplicavelmente, porém, as pessoas não compravam seus produtos, que possuíam qualidade e aparência semelhantes aos dos expostos nos tabuleiros das concorrentes. Pensou primeiramente no preço, mas mesmo quando tentou vender as frutas pela metade do preço não obteve sucesso.
Assolado por fracassos sucessivos, um dia resolveu perguntar a uma senhora por que ninguém comprava seus produtos.
Meu rapaz, a gente vê de cara que tu não é agricultor de verdade. Olha só, todo arrumado, dá pra ver que é da cidade. Aqui a gente gosta de coisa legítima.
Atônito, ele respondeu:
Mas tudo o que eu planto é natural. Garanto para senhora que minhas frutas são iguais as de todo mundo aqui. Não uso um agrotóxico, nada, nadinha. Me visto assim porque sou da cidade, mas estudei agronomia e tudo, vivo da terra.
Pois não é o que parece, ela retrucou.
Confie em mim, senhora, aqui, ele disse, pegue, experimente uma.
Ela pegou a laranja sem muita empolgação. Ser como um deles. Ser um deles.
Nas semanas seguintes passou visitando as pequenas propriedades dos demais agricultores da feira, vendo como viviam. Depois de um mês, julgava-se pronto para reagir. Abrutalhou os gestos, tentou falar de modo mais precário.
Inútil.
Logo percebeu que aquilo era muito pouco. Continuava limpo demais, urbano demais. Os novos trejeitos apenas haviam acentuado sua impostura.
Estava prestes a desistir, as frutas apodrecendo em seu depósito. É o último sábado que venho, pensou. Na próxima semana começo a vender para o mercado comum. Sabia de antemão que aquilo seria apenas adiar sua ruína. Precisava encontrar uma solução. Foi dar uma volta pelo parque. Caminhou a esmo por uns vinte minutos, antes de retornar. Quando já se aproximava da entrada da feira, viu uma moça de cabelos negros, curtos e reluzentes, vestindo jeans e camiseta. Um pouco antes das primeiras barracas, viu-a sacar do bolso um lenço que amarrou na cabeça e uns penduricalhos indígenas com os quais envolveu pulsos e pescoço. Tirou, também, não sabemos de que lugar, um adesivo que aderiu ao peito, três inequívocas e capitais consoantes. Parecia outra.
No fim de semana seguinte, a mesma barraca que antes não vendia nada passou a ter uma procura razoável. Dois meses depois, quando seu dono passou a usar a estratégia das unhas cinzentas, as vendas dobraram. Tentou colorir os dentes de amarelo, mas não obteve sucesso. O sabão de lavar roupa nos cabelos também se mostrou ineficaz, não se podia ver o efeito de longe. Experimentou suspender o desodorante, mas não aguentou a própria catinga. Contudo, a barba mal-feita e o bonezinho com a estampa correta foram suficientes para consolidar seu êxito.
O doce sabor da vitória.
Mas o que ele não esperava – supremo revés – é que suas técnicas de cultivo natural pudessem apresentar bons resultados, e que suas frutas, mesmo sem agrotóxicos, começassem a ficar robustas, coloridas e suculentas.
Ele podia se disfarçar. Elas não.
Pareciam-lhe acintosas e nefandas as coroas armadas dos abacaxis, as chamas vivas dos tomates, os doirados sóis das laranjas. Jamais conseguiria vender tais monstruosidades! Pareciam frutas de supermercado. Só que seus custos não seriam nem de perto cobertos na venda ao atacado. Precisava da feira.
Por alguns meses ainda conseguiu suprir sua clientela com os exemplares mais feios que lhe brotavam, mas percebeu que sem uma solução imediata estaria perdido. Sua barraca era a mais popular entre todas, quando passou a cobrar mais caro ninguém se importou. Ele era um legítimo agricultor ecológico. As pessoas tiravam fotos com ele, os pais faziam-no abrir laranjas para posar ao lado dos filhos, as bocas lambuzadas pelo bento sumo.
A solução radical foi comprar a produção de fazendolas próximas à sua, de agricultores que não tinham estrutura sequer para encaixotar o que plantavam. Não queria, no entanto, deixar que as frutas de sua fazenda apodrecessem. Assim, antes de ir para a feira, fazia o circuito de mercadinhos e armazéns, vendendo de modo bastante deficitário as mais belas frutas da cidade.
Ao descer da Kombi, naquele sábado, inspecionou as unhas mais uma vez como de costume. Veio a seu encontro o novo ajudante, recrutado no mais remoto rincão do estado, um alemão de um metro e noventa, com mãos que mais pareciam patas de elefante.
Pode descarregar pra mim? Preciso resolver um assunto urgente.
Enquanto o alemão baixava as caixas, ele percorreu as outras barracas, distribuindo apertos de mão.
Quando alguns clientes já chegavam, foi até o guichê de uma operadora de cartão de crédito. Queria, havia muito, trabalhar com cartões, mas tinha receio de que isso não pegasse bem com a clientela, embora muitos sempre insistissem em pagar dessa maneira. É um contra-senso, pensou. Uma pessoa verde não deveria contribuir com esse tipo de organização. No entanto, logo descobriu que o sistema financeiro era bem mais rápido do que ele: podia-se trocar os pontos acumulados no cartão por créditos de carbono.
Ao retornar, estava tudo pronto. As vendas, aceleradas. O alemão não escondia a faceirice de trabalhar na barraca mais popular. Com o português que lhe deram (cursara somente até a quinta série do fundamental), tentava ler os dizeres da camiseta do patrão.
Verde que… te… que… ro… verde.
Mal reparou quando uma senhora que escolhia laranjas viu surgir, por entre a primeira camada, a luz solar da casca perfeita.
Mas… mas o que é isso, meu senhor?, perguntou a mulher.
O dono da barraca, atento a uma jovem que quase exibia os peitinhos nutridos a tofu, demorou a entender o que estava acontecendo. Em seguida a mão da senhora começou a vasculhar entre os cachos de banana, até que o ouro resplandecente brotou por entre o amarelo encardido que o circundava.
Alguém me explique o que está acontecendo aqui, ela gritou.
Todos olharam para ela.
O que é isso? Que laranja é essa?, e quase esfregou a fruta na cara do dono. E essas bananas? Só falta me dizer que…
E com a mão jogou a primeira camada de tomates no chão. O incêndio das bolas de fogo encheu-a de uma fúria que foi se espalhando por toda a freguesia. E já outras mãos revelavam mangas perfumosas, maçãs assanhadas e ameixas túrgidas.
Frutas contaminadas, bradou um.
Veneno, gritou a peitinhos de tofu.
Fraude, repetia a senhora.
O alemão ergueu os ombros, sem entender nada. Foi quando o dono se lembrou de que havia deixado dentro da Kombi as caixas a serem entregues no mercadinho Rei de Cachoeirinha. O alemão não deve ter visto o que estava fazendo…
Uma bebezinha começou a chorar quando a mãe arrancou a fruta de sua boca.
Minhas unhas, ele gritou. São reais, vejam! São reais.
O palco começou a se esvaziar.
Não precisou de Sófocles para saber que chegara ao fim e que era o único culpado.
Mais útil teria sido a lição encontrada no manual A arte do ator, de Marcelo Ribeiro, que ele havia lido sem a devida atenção. Lá, na altura da página 42, terceiro parágrafo, em itálico, encontra-se a seguinte sabedoria: Mesmo na farsa o ator deve manter até o final a integridade da performance.

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Sobre pedrogonzaga

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