A descoberta da poesia

Texto publicado originalmente na Revista Norte.

Um de nós

1.
E eis que me vejo na posição antes ocupada apenas por aquelas criaturas que, num misto de preguiça, vergonha e aflição passageira, convencionamos chamar poetas. Lembro ainda (provável que logo esqueça) de suas lamúrias infinitas, os versos desembainhados, a grita protocolada: as editoras não querem poesia, nossos saraus não recebem cobertura da imprensa, enquanto eu gargalhava às escondidas, o riso mau que se vota às quedas alheias. Na verdade, eu só desejava que se martirizassem em silêncio, definhando corajosamente, nada de unhas pintadas, alegorias, adereços e outras extravagâncias. Já há poesia suficiente nas prateleiras do passado, eu pensava, protegido pela ilusão de que a prosa curta sim é que deveria dizer o mundo, com economia e sem afetação, que dos gêneros literários era o que estava mais próximo da primitiva experiência de transformar a realidade naquilo que se conta a outro, enfim, uma arte que ao longo do século passado nos deu Kafka, Borges, Cortázar, Blixen, Carver, papa Hemingway.
E, insciente, eu seguia cometendo contos, ingênuo como um pé de couve. O fato é que, numa vista a um editor em São Paulo, para acertar os detalhes de publicação do meu livro que ele não lera (um escritor amigo me havia recomendado), percebi, nos primeiros minutos de conversa, a surpresa – e o desgosto – do velho homem de letras.
− Contos? Faça-me o favor! Você disse contos?
− Eu…
− Ninguém mais escreve contos. Ninguém lê contos. Queremos um romance. Tem um romance?
Epifania, amigos claricianos, revelação súbita e profana. Com décadas de atraso, eu descobria que o conto era a nova poesia. Subitamente, minhas histórias de três páginas pareceram sonetos parnasianos.
− Queremos consistência, entende? − disse ele, sinalizando um calhamaço imaginário entre os dedos. Hoje em dia os leitores querem 300, 400 páginas de diversão. Veja, dê uma olhada aqui nesse nosso autor de vampiros. Já está no sétimo volume.
− Mas eu só sei… só sei escrever contos…
− Desculpe, mas aí a solução… Você já ouviu falar naquelas edições pagas? Tem ótimas editoras que se ocupam de uma linha mais alternativa.

2.
Abandonado o escritório, caminhei a esmo pela Paulista. Entrei numa livraria gigantesca, pedi a seção de contos, a atendente me indicou duas prateleiras que ficavam debaixo da escada. Passei os olhos pelos novos títulos: tramas aborrecidas, linguagem pseudolírica, labirintos borgianos que não resistiriam à primeira lavagem, enfim, uma arte da decadência.
De volta aos pagos de minha querência amada, imprimi o que me restava de prosa no computador e levei ao bolso: como um poeta, eu agora era uma ameaça. Era pelas ruas já um injustiçada, amargava-me a boca a certeza de ser gênio da raça. Afinal, tudo era culpa da mídia, das grandes casas editoriais que ditavam a imbecilidade das massas de leitores semi-alfabetizados. Já escurecia quando avistei o pequeno bar em que, tal seita medieval e maldita, os poetas se encontravam para se lerem.

3.
Lá dentro, respirava-se a tifo e a ignomínia. Havia em todos uma empolgação que não disfarçava o esforço necessário para encená-la. Aguardei paciente a minha vez, combinada de antemão com um homem curvo e grisalho, que recebia a todos junto à porta, inscrevendo as leituras de acordo com a ordem de chegada.
Não sei quanto tempo se passou até que alguém no palco dissesse:
− Pessoal, um minuto, peço a atenção de vocês. Temos gente nova esta noite. Recebam, com uma salva de palmas, o poeta Pedro Gonzaga!
Assim que comecei a ler, o silêncio e a perplexidade tomaram conta do lugar. Quando terminei o conto, não houve qualquer reação. Já me preparava para descer quando uma voz gritou do fundo da sala:
− Um de nós!
Logo outra voz se uniu à primeira:
− Um de nós!
E então o coro não parou mais de crescer. Sete vozes embriagadas.
− Um de nós! Nós te aceitamos, um de nós!

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Sobre pedrogonzaga

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