Equilíbrio

Abandonaram o carro no meio da estrada. Ao sair, o homem que ia como passageiro reparou que a placa traseira estava quase caindo, mas não disse nada. Caminharam em silêncio, lado a lado, quase roçando os ombros. Logo avistaram, para além de um capão, um pequeno casebre e o fio de fumaça que subia da chaminé. Deixaram o acostamento e atravessaram a cerca frágil e sem mais função do que demarcar a propriedade: não havia gado por ali.
O tom do pasto lembrava o frescor esverdeado das plantas subaquáticas. Algumas garças se agitavam. Os dois homens descobriram a custo que o casebre estava mais longe do que parecia.
Quase meia-hora depois, chegaram ao local. No pátio, algumas galinhas ciscavam a esmo, um cachorro magro e de pelagem bege estava amarrado a um mourão, deitado de lado sobre o chão batido.
Aproximaram-se da porta. Carlos, que viera dirigindo, se adiantou para bater.
Não houve resposta.
Resolveu contornar a casa, no que parecia uma tentativa de avistar alguma coisa lá dentro. Tudo estava na penumbra, ou talvez fossem os olhos ainda adaptados à claridade do dia. A chaminé seguia soprando uma fumaça viva e branquicenta. O passageiro continuava parado junto ao batente. Fez menção de bater, mas antes disso a porta se abriu.
Surgiu um homem velho e magro, um bigode cinzento que lhe cobria toda a extensão do lábio superior. O motorista se apressou em dar meia-volta. Depois de algumas formalidades, apontou na direção da estrada.
— Nosso carro estragou lá adiante.
O velho assentiu e fez um gesto para que entrassem. Os dois se acomodaram num velho sofá, coberto com um pano de chita.
— Calentaré el agua para ustedes — disse o velho. — Lo siento, pero no hay teléfono acá — e seguiu em direção à cozinha.
Os dois se olharam.
— Sei que talvez não seja a oportunidade para falarmos disso, mas prometi à Ana, sabe como é… Ia puxar o assunto um pouco antes da pane no carro.
— O quê? Ela te pediu para falar comigo?
— Sou o irmão mais velho.
— Ah, esqueci que vocês eram tradicionais — ele disse, coçando a testa. — O que tu quer que eu te diga, Carlos? Me surpreende que tu não saiba que meu casamento com tua irmã já não tem mais jeito.
— Então o negócio da outra mulher é verdade?
— Que importa? Não quero mais continuar com a Ana. Isso devia bastar.
— Ela me falou de outra mulher.
— Não tem outra mulher.
— Seja sincero.
— Isso é ridículo! Agora entendo esse lance da viagem… foi só para…
— Calma, meu velho. Te acalma. Não estou te julgando.
— Bem… Por outro lado, seria natural se tu me julgasse. Ana é tua irmã. Mas antes de tudo sou teu amigo, lembra disso. E esse negócio da outra mulher, eu…
— Tu poderia ao menos ter sido mais discreto.
O velho retornou com uma pequena cuia arredondada, à moda oriental. Alcançou-a a Carlos, retornando à cozinha para avivar o fogo.
— Te juro que não queria que ela soubesse — disse, por fim, o outro. — Mas é que…
— Estou ouvindo — disse Carlos, bombeando o mate.
— Bem, tu sabe como são essas coisas. Perdi a noção de tudo. Nunca ficou fissurado por uma mulher a ponto de mandar tudo pro espaço?
A água escaldante queimava a língua. Carlos emitiu um grunhido.
— Mas eu ainda amo a Ana, acredita em mim. Por isso pedi a separação, antes mesmo da viagem. Não quero viver assim, não consigo mais.
— Há um jeito certo de fazer essas coisas. Minha irmã está sofrendo o diabo.
O velho entrou novamente, trazendo mais uma cuia pequena, para o outro, que a estranhou, acostumado às dimensões da cuia gaúcha. Trouxe também uma chaleira que pôs sobre a mesa de centro. Pediu licença e disse que ia atrás de um cavalo para buscar socorro na cidade mais próxima.
Outra vez a sós, os dois se encararam em silêncio por um breve instante.
— Me parece que o mais acertado nessa situação — seguiu Carlos — é buscar uma compensação para a Ana, uma espécie de reparação, não te parece?
— Reparação? Do que tu está falando, Carlos? Vivemos num mundo em que as pessoas se separam, ora.
― E a humilhação? Ou isso não te parece grave?
― Humilhação? Que tom é esse?!
— Calma, homem. Podemos resolver tudo aqui mesmo.
— Está me ameaçando? — perguntou o outro, sorvendo um gole de mate.
— Ameaçando? Não. Até porque já foi a época em que se podia ameaçar alguém por uma coisa dessas. Traição é coisa comum hoje em dia, dizem.
— Sim, é isso mesmo, meu velho. Vai dizer que tu também, hein, que nunca traiu? Sei que tu dá tuas escapadas ― disse, dando-lhe um tapinha no ombro. Olha, Carlos, vou ser honesto contigo. Quero apenas o divórcio. A Ana vai ficar bem, te garanto, logo ela supera a nossa separação.
— É, ela vai ficar bem sim. Todos ficaremos bem.
— Então pra que esse drama todo?
Carlos olhou para a mesa de centro, feita de madeira rústica, por alguém que seguramente não entendia de marcenaria. Entre as quinquilharias sobre o tampo, havia o retrato de duas crianças morenas, felizes, um retrato antigo e desbotado.
— Apenas por curiosidade, como se chama a tua amante?
― Ela não é minha amante. Seria minha amante se eu não me separasse.
― Não enrola.
— Pra que tu quer saber?
— Não te pareceria estranho se eu não quisesse saber.
― Vai me dizer que não sabe quem é? Quem te cantou a pedra deve ter dado o serviço completo.
Tomou mais um gole e estendeu a cuia até a chaleira que Carlos lhe oferecia. Um pouco hesitante, disse:
— O nome dela é Laura.
— Laura…
— Acho até que tu a conhece… do escritório. Ela trabalha no setor de processos trabalhistas.
— Acho que não. Há quanto tempo vocês estão juntos?
— Nem dois meses. Ela estava saindo com um cara da firma antes de mim. Mas aí terminou tudo com ele, claro, para ficar comigo. Parece que o cara ficou mal, coitado. Mas o pior tu nem sabe. Tenho uma foto dela lá na minha mala que foi o outro que tirou. Não é engraçado? ― e piscou marotamente. ― Sabe, tenho uma teoria. A vida depende sempre de um equilíbrio. Pra que alguém possa ficar feliz, alguém tem que ficar triste. Eu e a Laura somos os felizes da vez. Sinto pela tua irmã, por esse outro cara aí que fez a foto. O que importa é que é paixão pura entre a gente, meu velho, dinamite pura.
Carlos apertou involuntariamente os olhos. Ouviu alguns barulhos lá fora, sons de cascos, que o outro não chegou a reparar. O velho vinha acompanhado de um peão bastante jovem.
— Será que conseguimos resolver esse negócio do carro ainda hoje?
— Acho que sim.
— Escuta, espero que apesar de tudo, que mesmo com a separação, a nossa amizade siga inalterada.
— Claro.
— Sei que no começo tu vai ter que ficar do lado da Ana.
— Não se preocupe, está tudo bem.
Carlos olhou para o relógio, deixou a cuia escapar das mãos. Logo era a cuia do outro, precedida de um resfolegar, que caía, seguida do corpo, num baque surdo.
Lamentou a falta de simetria de ambas as quedas. Tinha soltado a cuia três segundos antes do tempo.
Os empregados se aproximaram. O patrão fez um rápido aceno. Levantou-se do sofá e saiu do casebre, tomou o cavalo, seguiu em direção à estrada, acompanhado pelo velho. Pensou na alegria da irmã redimida, o que talvez não fosse mais do que uma fantasia necessária.
Chegou sem dificuldade até o ponto onde o carro estava parado. Apeou e seguiu em direção ao porta-malas. Lá estava a bagagem do outro. O velho estava ali para isso, mais alguma coisa precisaria ser enterrada.
Carlos abriu o zíper e vasculhou os bolsos internos da grande bolsa de couro. Logo sentiu nos dedos a superfície lisa do papel fotográfico, que acariciou como quem percorresse um pedaço íntimo e conhecido de pele que as roupas escondem. Olhou para a mulher e aquilo lhe pareceu uma nova e desequilibrada fraqueza. Refez os fechos e entregou à bolsa ao velho. Depois, sem esforço, soltou o arame que prendia a chapa falsa à traseira do veículo.
Seguiu até o lado do motorista. Com um leve toque, desativou o mecanismo que usara para bloquear a ignição e deu a partida, perguntando-se como o outro não reparara que tinham viajado o tempo todo com uma velha placa uruguaia.

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Sobre pedrogonzaga

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