luz branca

novembro em porto alegre
a luz branca a um só tempo
dolorosa e quente ergue
o nocivo laranja das pedras grês
a claridade tumular dos basaltos

quase meia vida e
nenhum poder de adaptação

traços que se somam
certezas que se borram
carros que se definem
apagando-se em metálicas faíscas

um grupo de ativistas passa
suam seus corpos nus
suas peles parecem de aço
um tipo repulsivo de liga
avessa às sombras
concreta como um poste


Análise de Michael de Souza Cruz para o meu poema Juncos

“Penso que a poesia deve ser redentora dos objetos do mundo”. É dessa maneira que o poeta Pedro Gonzaga sintetizou sua visão acerca do que deve ser a poesia, em mais uma de suas conversas sobre arte com este que escreve, geralmente ambientada na Palavraria Livraria Café, no bairro Bom Fim. Pressionado a esclarecer sobre tal “papel redentor”, Pedro afirmou que “a poesia (ao menos boa parte da “poesia moderna”) é um certo ordenamento da matéria(…) A matéria é sempre o ambiente, o poeta dá a ela um sentido, uma atenção ao que é singular. O objeto na sua singularidade”.
Como que instigado pela pergunta–cuja resposta não tinha ainda nenhum comentário de minha parte–, Pedro Gonzaga se pôs a escrever um poema. Levado por sua própria definição, a idéia–cadenciada por mente e mãos do poeta–se fez arte. Seu resultado foi Juncos, o poema abaixo.

por entre sombras azuis
a matéria inegável do corpo
é forma sensível do tempo
bendita a manhã que passa
ao peso constante de tua bacia
no modo como certa maciez
concentra os efeitos da chuva
e o calor escaldante da areia

depois as duas fontes que ofertas
enxutas ocorrências da sede
pedras sucessivas em meus lábios
enquanto se enredam as ramas
ao som alado dos juncos
que o vento extrai da persiana

Analisemos o poema em quatro partes, duas partes por estrofe. Aos quatro primeiros versos:

por entre sombras azuis
a matéria inegável do corpo
é forma sensível do tempo
bendita a manhã que passa

O primeiro verso já traz consigo a aclimatação da temática poética: as sombras azuis são objetos cujas condições de percepção são–e devem ser–estranhas ao leitor. Sombras nos remetem à escuridão, em geral associada ao preto, não ao azul. Ou seja, não há condições ideais de percepção, a matéria é opaca aos olhos. No entanto, diante das incertezas, estamos passivos ao objeto da presente poesia: o corpo. Sua presença não pode ser negada, impõe-se. E, então, um primeiro entendimento é estabelecido: o corpo é a condição humana da experiência. Ao identificá-lo, estamos no mundo. Ao senti-lo, há então a vida: a nossa (a do leitor) e a do outro (a do próprio corpo). E, com isso, a satisfação existencial, a partir do cenário, o ambiente identificado: a manhã que passa. Tensão e resolução em quatro versos.
Esse reconhecimento simultâneo de si e da alteridade não são conquistados pela visão, antes obliterada pela sombra opaca, mas por outro sentido, o tato. É o que fica claro pelos versos que seguem o poema:

ao peso constante de tua bacia
no modo como certa maciez
concentra os efeitos da chuva
e o calor escaldante da areia

Esses quatro versos nos revelam, neste verdadeiro movimento progressivo de compreensão, a identidade do corpo: uma mulher. É o corpo feminino a fonte de experiência e entendimento. O todo visto por meio da parte, a parte mais íntima da mulher. Ela é o conteúdo inegável, seu peso explicita a passividade e a rendição do eu-lírico.
A matéria, agora, está aclimatada a uma ordenação, a um cenário. As metáforas trazidas à baila são entre si opostas sob o olhar do leitor atento, chuva e areia, água e terra. Não obstante, essa aproximação se firma não pelo que são em si, mas pelos seus efeitos: a umidade e o calor da parte mais íntima do corpo feminino. Eis o mistério do corpo, objeto de entendimento, de experiência e do mais puro desejo. O desejo do corpo do outro como condição da sua própria experiência.
A segunda estrofe, em seus três primeiros versos, marca a temporalidade da experiência e a abertura da vontade em direção a outras regiões do corpo então reconhecido. Sua sentido é o norte:

depois as duas fontes que ofertas
enxutas ocorrências da sede
pedras sucessivas em meus lábios

A marcação de tempo é notável, o desejo se apresenta em instantes, a experiência está no tempo. Sua direção, agora, são os seios da mulher. Seu busto, nuamente apresentado, se coloca como oferenda àquele que o contempla. Sua qualificação flutua entre o profano, o incestuoso e o primitivo. Sede do leito materno, fonte de vida? Ou simples fonte da sede dos desejos? A ambigüidade é necessária. Desejo e possibilidade da experiência se confundem e colapsam, nada pode ser olvidado. Mentes freudianas teriam aqui seu tributo pago em dia, sem esquivos.
Encerrada tal querela, uma quebra: a atenção aos sentidos, origem da experiência, ganham importância novamente. Confirma-se a primazia do tato, possibilidade da vontade e da compreensão, em detrimento da visão, instância de opacidade. E a metáfora novamente ganha contornos de determinismo, de inevitabilidade e de dose de brutalidade: pedras jogadas aos lábios. Sensação pura e imediata, como é o próprio querer. A marcação de sucessão–novamente o temporalidade que está em jogo–emitem o êxtase desenfreado, fruição inebriada.
Maciez e calor genitais, dureza e força dos seios: jovialidade em estado de graça. O tempo é a experiência do eu lírico, não o da mulher, objeto de desejo. Este se apresenta incorruptível ao tempo, auge de beleza e sensualidade. O desejo do corpo é o desejo desse instante apoteótico, sensação de permanência–eternidade. Nesse instante, é o corpo do eu-lírico que clama e suga a beleza do corpo da mulher– beleza eventualmente materializada, mas que dela escapa– no que há nela de única, imortal e sublime, na fugaz tentativa de negar o inevitável: a finitude do ser desejante.
O movimento do poema segue seu ritmo de modo a fornecer um maior esclarecimento do cenário onde tudo se passa, título do poema:

enquanto se enredam as ramas
ao som alado dos juncos
que o vento extrai da persiana

Novamente fica evidente a marcação temporal. Não podemos perder isso de vista. A experiência está no tempo, ela tem duração, medida, fim. Tudo se passa em um ambiente estranho e alheio à experiência. Dessa vez, a exposição do natural no que ele tem de mais enigmático: sua indiferença e seu móbile próprios, indecifráveis, ao lado da sua ordenação pela pelo gesto poético, da vida que sente, se conhece e deseja.
A audição é então evocada. Não como faculdade do ente que deseja, ou do objeto desejado, mas como o segredo que se conta ao leitor, que vai concebendo o cenário de dentro para fora, da confusão do que se vê, o entendimento do que se toca e a audição da membrana envolvente à experiência. Tudo, então, se torna claro: a vida está entre as paredes frias e os movimentos indiferentes das ramas de junco. O tema não são os juncos (designação dada a plantas herbáceas delgadas e flexíveis que habitam lugares úmidos–mais uma evidente sugestão erótica), porém a matéria em forma de corpo humano que, ordenada e viva, supera a frieza e inapelável indiferença que lhe são intrínsecas. Estamos, com efeito, diante de um poema dedicado à defesa da vida humana, caro leitor. Da vida no que ela tem de substancial: racionalidade e vontade; entendimento e querer; contemplação e ação. Mas não é somente isso o que podemos ver aqui. Juncos é uma justa instanciação da tese poética de Pedro Gonzaga.

Novamente perguntado por mim sobre por que sua poesia não poderia ser qualificada de concreta, o poeta foi enfático: “Não se trata de uma exaltação da matéria ou do corpo por si, mas do que ela provoca e a ela subjaz… Um sentido”. O sentido do corpo é a vida que nele está contida–autoentendimento e vontade. A arte poética–o gesto artístico, portanto–é sempre criadora, petrarquista, idealista e emana telos à matéria–corpo–fria, limitada e finita. A poesia, em uma formulação que corre aqui o risco de ser lugar-comum, clama pela vida, provoca, chama à frente o que é vivo e humano.
Daí a sedução sempre contida que uma poesia “metafísica” e “cerebral” dignas de um T.S. Eliot ou Wallace Stevens exercem sobre o gosto do poeta. Não se trata de contemplar o real e o existente. Isso é metade do caminho, metade da poesia, metade do homem. O homem é também um ser desejante–este aliás, traço crucial de sua temporalidade, fonte das experiências que o constituem–, e essa condição resoluta do que é humano não pode ser silenciada na grande arte.
Por isso, a poesia de Pedro Gonzaga, além de oferecer ao leitor a compreensão do mundo e de si mesmo a partir de sua lente idealista e de seu gesto criativo, chama o homem à ação. Ler um poema seu não é somente ter uma experiência estética, mas também uma experiência existencial, que implica o exame dos seus próprios atos. Nas palavras do poeta: “pôr em risco a própria pele”. Se o leitor não quer tantas exigências sobre si mesmo ao ler um poema, talvez o melhor seja de fato não ler a poesia de Pedro Gonzaga. Seguindo de forma incontornável o ensinamento do inigualável Drummond–uma de suas maiores referências– , “que tristes são as coisas consideradas sem ênfase”.
A exemplo do que um grande filósofo certa feita já alertara–“ver um leão é já temê-lo”–a poesia de Pedro Gonzaga supõe a unidade do movimento perceptivo e volitivo, intelectual e passional. Não há recuo contemplativo, a despeito da beleza do poema. Quem o encara, está intimado a refletir sobre si, sobre suas paixões, a examinar sua condição. Não há espaço para o sossego indiferente da contemplação do exterior mediante idéias. O que há é a existência humana posta em xeque pelo convite do olhar do artista tal como ele vê.
A Poesia de Pedro Gonzaga acaba, com efeito, fazendo as pazes com a Filosofia–a boa Filosofia, isto é, aquela que, a despeito de toda técnica e rigor conceituais que eventualmente possui, tem coração. Não, isso tampouco é uma das menores preocupações desse poeta petrarquista, refratário a análises e lógicas e desvelamentos fenomenológicos de toda sorte. Mas o que importa aqui não é exatamente o que intencionalmente quer o poeta com a sua poesia, embora as considerações que aqui se encontram partam de um relato real seu, mas sim o que ele de fato faz com a sua poesia.
E o que a poesia de Pedro Gonzaga faz é oferecer àquele que se sente desafiado em a ler a lente pela qual o artista concebe o mundo, a imagem que ele oferece à matéria espontânea que ganha uma vida mediante o sentido atribuído pela arte da sua poesia. Algo a partir do qual possa se reconhecer e pelo qual consiga sentir o mundo para nele poder viver. Algo que não pode ser dado pela matéria em si mesma, mas pela concepção que sobre ela o artista oferece–o transcendente à matéria. Pedro Gonzaga nos oferece, com efeito, a sua tentativa. A tentativa de compreender o que é o homem e o que é a vida humana. Não seriam isso também a Ciência e a Filosofia, tentativas? Talvez não. Mas isso é que é a Poesia.


o filme

apesar de guardadas à sombra
certas memórias se apagam
como a cor banhada ao sol
e o que jaz sob a lombada opaca
são as formas vagas dos traços 
onde havia mais fundos relevos

do filme babaca borrou-se o título
quem era o galã que o estrelava
quanto a mocinha teve de sofrer
por que fomos parar naquela sessão
mas não os arabescos da chance 
o cheiro artificial de manteiga
o plástico irregular do encosto
a certeza branca de tua coxa
que os dedos podiam pressentir
enquanto passava o momento

o resto depois é matéria apócrifa
o azul da tela que é sempre o azul da tela
teu perfume sentido noutro dia e não lá
a roupa que te guardou mais desejável
e que te veste sempre que voltas
da região perfeita do que não foi


estradas

estradas da minha terra e seu homem a cavalo
carros em carga seus novos lanceiros
casebres na lonjura e postos de gasolina
sem bandeiras ou comida decente
pequenas cidades e grandes cidades
suas júlios de castilhos
suas borges de medeiros
a igreja feia a igreja 
miraculosamente bela
e depois a estrada
e a larga fronteira
serras verdes e pampa verde
mar cinzento

cinzentas cidades

séculos depois

marechais florianos e duques de caxias
matrizes sem igreja e restaurantes vazios
onde toca para ninguém
antigos sucessos feitos de gordura e pó


na banca

a moça da revista 
usa um biquíni cintilante
faz inverno aqui fora
mas nunca chove
em sua carne dourada
as letras colossais anunciam
o regime para secar
quatro quilos na semana
as dicas para acionar
um motor entre as pernas
e eu me pergunto até quando
a falsa sedução da boca
outras tantas capas
até parece que não há frio
estamos todos felizes
o sexo haverá de nos salvar
enquanto no forno
cresce a receita
do revolucionário bolo sem farinha


farol de santa marta

o vento para conhecê-lo
o modo como soa grave
e agudo ao mesmo tempo
no alto das pedras seu
ataque se espalha difuso
nas pernas e nos braços
a sanha de arrancar o chapéu
e de esparramar teus cabelos
é o mar lá embaixo em silêncio
tuas pernas muito brancas
estranhos caules de uma árvore
cuja copa é teu frouxo vestido
tuas pernas macias e fragrantes 
como o lenho ainda jovem
que o vento curva e retifica
a relva feita para teus pés
agudo e grave o desejo
não se reduz a uma melodia
ecoa meses depois
no frio e úmido e junhoso outono
enquanto alguém chora na tevê
mutada a artificial piedade
da decadente apresentadora


taquara

o passado é um país que se apaga
enquanto avanças pela cidade paterna
atrás de fachadas de atrozes cores
cai o último reboco do clube comercial

na memória a prefeitura reina na praça
não há os três magazines que a engolem
as pessoas que antes olhavas de baixo
deambulam como feias formas de reflexo

e então ali está a velha rua da rodoviária
e a casa da tua avó antiga capital da nação
lá estão agora teu primo e tua tia sobreviventes
os últimos falantes de uma língua prestes a se calar


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 5.264 outros seguidores