eu a conheço

eu a conheço em forma pura
não em seu batom defensivo
e a um só tempo comburente
nem em suas calças malignas
recambiável nudez das pernas

eu a conheço em forma pura
não na feroz armação do mundo
em olhos feito convite e fumaça
não entre as lâminas do relógio
que a leva à sombra de frios corredores

eu a conheço em forma pura
quando a manhã
entra pela porta
e toca seu rosto 
tal uma carícia
toco seu corpo 
com patas de urso
e seu pescoço emerge
das cobertas branco
favo de baunilha


o som que escutamos

o som que escutamos não vem dos pneus
mas da poeira que deixa de flutuar calada

morangas evoluídas em formas sinistras
e teu pescoço de cântaro e suor luminoso

teremos vencido insones três fronteiras
até que a fome e o cansaço abrissem a porta

o motor mói a cana num sumo cor de mostarda
e teu vestido paira frouxo à metade das coxas

uma criança ranhenta corre atrás dos tomates
balaios de palha dançam como jovens macacos

a tabuleta vaga frouxa ao fim de mais um verão
e teu tornozelo lavado no banho da próxima noite


dentro da chuva
o inútil artefato
cogumelo negro
unido a terra
por outra forma
parasitária de planta
bebe de um humor
quase transparente
e por certo letal
para a outra flora
pois feito de infância
de barro da praça
daquela noite
em que um par de costas
onde havia o vestido
revelaria quente
uma forma insuspeita
de estado da água

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as novidades

as novidades chegam de madrugada
a bordo de ligações importantes
cientes de que o corpo ainda tenro
da noturna morte singela do sono
mais bem será crivado por suas estacas

as novidades sabem que de madrugada
o esterno se abre feito uma flor branca
as costelas afrouxam o arco das barras
e os pulmões são dois balões cinzentos
expostos como airosos cachos de uva

as novidades amam a madrugada
pelo instante em que a consciência diz
está aqui uma criatura humana
apta a saber tudo o que lhe reservamos
mansamente submetida ao desconhecido

as novidades ressoam de madrugada
a algazarra de mil trombetas de bronze
para que as ouçam os despertados
mas também os amantes insones
tocando a cada qual seu calafrio


movimento

como um velho sobrevivente
que entregou os melhores anos à pólis
deixo-me ficar estirado sobre a cama
enquanto te arrumas afoita
tomada de uma pressa contraproducente
movendo de lá para cá uns cabelos infinitos
contraindo o rosto em tantas caretas
abrindo com fúria o armário
calças um sapato que logo descartas
entras no banheiro
sais do banheiro
retornas ao banheiro
bombatomizas o banheiro
para se pintar com toda sorte de produto
me olhas através da porta
de quando em quando
prometes barbarizar no escritório
agora sim vais pôr a roupa
antes era o corpo e a mal coberta intimidade
todo o movimento da vida dentro de um quarto
sem precisar de motores manifestantes
pipoqueiros aeroplanos pinos cirúrgicos
substituíste um a um todos eles
todos os assombros domesticados
que a cidade ainda insiste em apregoar


ofícios

ofício perverso
pretensa vida
até que uma ânsia
explode numa flor abjeta
trata-se do teu sangue
pequeno poeta
impuro coágulo
uma sorte de prêmio
por veres beleza
onde outros erguem
centros comerciais
mas nada de ilusão
pequena criatura
eles têm um ofício
um sangue decente
que a terra aceitará
tuas mãos destras -
vamos chamar de dom
são duas sombras
plenamente extintas
ao sol da manhã


depois disso

depois disso começamos a viver de maneira estranha

contando as calorias gastas num ato sexual

atentos a números decimais que passam velozes

de coisas que não existem ou não importam para nada -

outra celebridade chegou à vigésima plástica

reluz a gravata do especialista em clareamento anal

extrapolam-se os seios da garota do tempo à altura do piauí

e logo o antigo corpo cede ao veneno de sua nova humanidade


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